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O Brasil já experimentou a geração Coca-Cola, eternizada por um clássico de Renato Russo. Num passado não muito distante, esteve em voga a geração tribalista, nomeada assim pela música Já sei namorar, dos Tribalistas. Agora resta saber qual banda se arriscará a deixar na história o fenômeno que o território verde-amarelo começa a experimentar: a geração surfistinha.
Graças à ex-dondoca, ex-prostituta, atual escritora e candidata a milionária Raquel Pacheco – codinome Bruna Surfistinha –, a profissão mais antiga do mundo caminha para ganhar ares de status, realização sexual, fama, dinheiro, e, o pior, liberdade.
No seu conto de fadas às avessas, a princesa fugiu do castelo para se livrar da bruxa má – no caso, os pais. Mergulhou no mundo das drogas. Teve um puta trabalho – literalmente – para conseguir sobreviver longe das asas da família. Até, é claro, encontrar o príncipe encantado, João Paulo Moraes. Mas antes dele esteve com outros 1,2 mil sapos.
Tirou o véu que encobria os bastidores da prostituição em um blog na internet. Depois transformou suas peripécias sexuais num livro. Tudo bem. Nenhuma novidade até aí. Até porque as rainhas do pornô americano, Jenna Jameson, Christy Canyon e Traci Lords, já haviam feito suas biografias sexuais. E também são best-seller, a exemplo de O doce veneno do escorpião, de Bruna Surfistinha. O problema é que a história bem-sucedida da ex-profissional do sexo encontra terreno fértil no Brasil. Aliada a uma geração que vive relações superficiais, quase sempre epidérmicas, onde jovens têm sexo, mas não encontram amor, a projeção nacional que Bruna tomou pode fazer com que a prostituição de luxo entre garotas de classe média se torne uma epidemia.
Em Christiane F., drogada e prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck, sucesso dos anos 80; ou no mais atual Cem Escovadas Antes de Ir para a Cama, de Melissa Panarello, as histórias não têm finais felizes. Christiane Vera Felscherinow, ou Christiane F, por sinal, ainda hoje não se livrou da guerra particular que trava desde 1975. Daí a particularidade de Bruna Surfistinha. A jovem brasileira tem um desfecho para lá de feliz depois da vida no submundo. Não que o final trágico fosse o que ela merecesse por ter sido prostituta. Não é nada disso. Que bom que, embora sejam casos raros, algumas pessoas como ela encontram finais felizes. Muito menos por preconceito. O mau é que isso esteja servindo como espelho. Ser prostituta por vaidade, ambição, luxo ou influência da mídia é muito preocupante.
A geração surfistinha é uma mostra clara da perda de valores familiares. Além disso, é uma dose nítida das mudanças culturais que o mundo experimenta e da influência do tal capitalismo selvagem. Até o fim da geração Coca-Cola, a prostituição era sinônimo de infelicidade, um mau imposto às vítimas do apartheid social. Hoje, aparece travestida de glamour. As mulheres que antes se prostituíam para alimentar aos filhos ou por serem escravas de entorpecentes agora se vendem para vestir Dior, Prada, Diesel, Maison Saad. Para morar em apartamentos de luxo, fazer compras na Oscar Freire, freqüentar lugares badalados e correr o mundo em muitas, muitas viagens.
Para garantir salários de executivos – podem chegar a R$ 20 mil por mês –, também estão na faculdade. Pelo menos isso é um bom sinal. Independente da utilidade prática que dão ou não ao conhecimento adquirido, enriquecimento intelectual não faz mau a ninguém. A prostituição começa a trilhar um caminho para aparecer como qualquer outra escolha profissional. O crescimento de 70% no número de adolescentes de classe média que se prostituem nos Estados Unidos comprova isso. Imagine sua filha estudando para ser prostituta de luxo ao invés de médica ou advogada. É, sem dúvida, uma quebra de paradigma. E isso, além de preocupar, assusta.
Pela legalização da profissão sempre. É preciso que prostitutas tenham direitos constitucionais garantidos aos trabalhadores. Mas contra a banalização e a apologia à prostituição. E é isso o que o fenômeno Bruna Surfistinha faz.
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