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Tudo bem. Se vou arder no caldeirão fervente do “coisa ruim” depois de ter blasfemado contra a pseudo-santidade, o Papa Bento XVI (edição do DM do dia 6), não vou so-zinha. Bato o pé na hora do julgamento final. Que o “filho de chocadeira” – como eternizou Mateus Nachtergaele no Auto da Compadecida – reforce o estoque de tridentes, de palitos de fósforo, querosene ou o que mais o espírito das trevas usar para deixar a chapa quente.
O “diretor” da multinacional da fé, cujo nome fantasia é Universal do Reino de Deus, o tal Edir Macedo, será uma das almas torradas pelo fogo do inferno. E não faltarão argumentos para que o diabo atenda ao meu pedido e não deixe impune a sua passagem pelo submundo. Em 29 anos, a retórica triunfalista da Universal apresenta como mensagem o excomungado (pelos servos, claro) desapego material. Isso lhe garantiu expansão exponencial em território verde-amarelo, na África e nos EUA. Além de lucro anual maior do que o da Coca-Cola. O ba-lanço contábil da igreja é a prova concreta do poder da fé.
E olha que o ex-católico e ex-umbandista Edir Macedo nem precisou descobrir – inventar – uma fórmula tão secreta quanto a da Coca-Cola. O método é bem mais simples. Parte da premissa apregoada inicialmente pela Igreja Católica de que o desapego material é o principal caminho para a redenção. Fé, então, torna-se sinônimo de sacríficio. Mas vamos lá. Vale tudo em nome de Deus, ou melhor, de pecadores que se acham aptos a falar em nome Dele. A oferenda (obrigatória, é claro. Regularmente todo mês 10% do salário dos fiéis tem destino – in – certo) é algo material – para a igreja, como é evidente – mas que, com certeza, faltará para o crente.
Feito o sacrifício através do dinheiro, estabelece-se uma relação de troca: eu dou a Deus – por meio da igreja –, que me retribui com o que eu desejo: bem-estar, sucesso pessoal e muita riqueza. Ah! Mas na cláusula minúscula do “contrato espiritual” consta que se isso não acontecer é porque eu continuo pecando ou porque não tenho tanta fé assim. E, enquanto eu não exercito minha fé, os representantes de Deus na terra ficam incumbidos de fazer dinheiro do dízimo se multiplicar – para eles.
A grife Lar Evangélico (com mais de 1,2 mil produtos que têm nas embalagens selos para ser recortados pelos fiéis e depois levados às igrejas, para que metade do lucro líquido obtido com os royalties do licenciamento da marca seja repassado para as mesmas. O volume de royalties dependerá da quantidade de selos que cada igreja arrecadar) torna-se a prova concreta de que, com fé, a gente vai longe. Com o “empurrãozinho” nítido do poder de persuasão dos pastores e bispos que lhe “conduzirão” ao paraíso.
E não é só esta a inovação. A Universal do Reino de Deus vai além quando o assunto é negócio. O grupo empresarial tem produtoras, gráficas, gravadoras, jornais, editoras, emissoras de rádio e redes de televisão. Para enriquecer o ciclo financeiro, os fiéis agora podem contar também com um serviço de microcrédito popular. É o engatinhar do futuro Banco Universal: juros baixos e crédito fácil. É verdade; se for levado em conta o patrimônio da igreja, a fé não só move montanhas, enriquece também. E, como atestou Edir Macedo no documentário comemorativo do 20° aniversário da igreja, tudo graças à providência divina.
“Atribuo à ação do Espírito Santo o crescimento da igreja. Não se trata de marketing bem feito, boa administração, nem qualquer razão humana. É ação do Espírito Santo mesmo”. Mas quem sabe o tal “espírito” esteja providenciando de um lado e o “coisa ruim” de outro. Se cuida, Macedo, porque a chapa pode já estar esquentando. E só a sua. Pois, com tanta ingenuidade, o lugar dos milhares de fiéis no céu ou no purgatório já deve estar garantido.
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