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A consciência da própria ignorância – e a busca da verdade – nos faz humanos: é quando reconhecemos a possibilidade da verdade no outro e podemos convidá-lo ao diálogo. Essa opção pela conversação – além de permitir o intercâmbio de informações e pensamentos – nos permite praticar o respeito ao interlocutor: a validade que atribuímos às nossas idéias devemos reconhecer nas opiniões dos demais. A partir desta escolha iniciamos o processo de cooperação e trabalho para a construção dos significados comuns – que fluem entre as pessoas e aglutinam os vínculos humanos.
Vivemos em escala global talvez a pior crise da história da humanidade – provocada pelo crescimento da violência de todos os matizes, envolvendo inúmeras famílias (e atingindo especialmente a mulher), alastrando pelas ruas das cidades e contaminando as nações – que abusam da força e provocam guerras intermináveis. Sabemos que toda crise traduz uma carência de autoridade, em todos os sentidos do termo. A crise é uma situação de contradições e rupturas, plena de tensões e desacordos – e faz com que as pessoas e as sociedades tenham dúvidas acerca das atitudes que devem exercer. A busca das soluções para as crises implica no tempo: descansa sobre uma comparação entre o presente e o passado, na qual o presente toma o aspecto de aflição e o porvir de uma angústia – porque o passado se perdeu e desconhecemos o futuro. Nesses momentos avulta a importância do conjunto de emoções que acompanham a evolução dos períodos de crise, da dimensão existencial que se expressa nos comportamentos coletivos e está presente no diálogo, condicionando o seu desenvolvimento.
O desafio que emerge na superfície das ações para a superação da crise da violência e a promoção da paz no nosso dia a dia é compreender o diálogo como um valioso exercício de criação e transformação – através do qual poderemos elaborar novos significados, integrar expectativas diferentes e também contraditórias. O diálogo não está submetido à porção da verdade de cada um e não será o resultado de uma opção individual: decorrerá de uma construção conjunta. O processo de construção e manutenção da paz nas comunidades será a expressão de um significado compartilhado – especialmente se nos lembrarmos que, quando este significado se dilui, temos uma sociedade vazia de sentido: as instituições se tornam órfãs e a violência eclode como mecanismo privilegiado para a realização da vontade individual ou coletiva.
O século XXI assinala o surgimento das redes complexas de interesses em conflito. Assim, o desafio não está em evitar o conflito, mas em sua transformação – e o diálogo deverá ser o processo para gerar consensos fundamentais e fortalecer as perspectivas de convivência, como estratégia explícita e sistemática: uma ferramenta para a mudança das estruturas, uma plataforma de realização dos valores para a convivência social e não somente dos interesses particulares; um instrumento de formação de consensos básicos que tornem possível outro equilíbrio de poder na sociedade, abrindo novos canais de acesso e de participação da cidadania.
O diálogo tende a configurar-se como um espaço de contenção, um âmbito gerador de novos significados compartilhados, sobre a base de uma pluralidade de idéias e crenças, entre todos os atores sociais. É indispensável reconhecer a problemática que se delineia a partir das novas realidades e condições sociais da sociedade globalizada, enquanto determinantes da marginalização e da exclusão, interferindo nas possibilidades para a realização de uma cidadania plena. Neste cenário, somos desafiados em nossa disponibilidade para o diálogo – e em seu potencial de transformação, em seu caráter de gerador de racionalidade e organizador de consensos na sociedade.
Os processos de transição e construção democrática dão testemunho da competência do diálogo para facilitar os consensos mínimos – que tornam possível a tomada de decisões com reconhecimento de legitimidade. O diálogo sobre a crise da violência não poderá ignorar a realidade do poder nem seus modos de distribuições na sociedade – que, por sua vez, deverá explicitar nas suas conversas a realidade dos conflitos e as condições que determinam sua formação, revelando a oposição de interesses e valores, visualizando a dinâmica social consciente de que esse cenário é concebido como um sistema complexo de equilíbrio instável, promovendo condições para incrementar os níveis de confiança entre os atores sociais, garantindo um clima de confiança e crenças renovadas.
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