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Exclusão à francesa
    
 


A França, considerada o oásis da tolerância, onde convivem africanos, muçulmanos e gente do mundo todo, que contribui para o sucesso econômico da Europa do pós-guerra, mostra-se agora incapaz de assegurar condições de vida digna para jovens descendentes de imigrantes. O racismo, do qual eles reclamam, não é como nos EUA – explícito e segregacionista –, mas um preconceito de classe, como acontece no Brasil, espelho do sistema indiano de castas, que não permite a mobilidade social.

A impotência social do país que inventou os direitos humanos não é de hoje. Dos 60 milhões de habitantes franceses, 7 milhões são imigrantes ou descendentes de africanos, e o plano de renovação urbana, anunciado agora para conter os distúrbios, é esperado há 25 anos e fora lançado há 18 meses. Não saiu do papel. Se tivesse sido colocado em prática, evitaria a maior crise social e política do país nos últimos anos.

O levante dos jovens do subúrbio, da “escória” – de acordo com declaração infeliz do ministro do Interior, Nicolas Sarkozy – tem saldo de quase 6 mil carros incendiados, dezenas de estabelecimentos destruídos e um homem de 61 anos morto por espancamento. O estopim da ira foi aceso pela morte de dois jovens de origem africana, eletrocutados numa estação de transmissão elétrica, enquanto fugiam da polícia para não serem interrogados. Do subúrbio, os distúrbios – forma cautelosa que o governo encontrou para classificar a revolta – se espalharam pela França e agora contaminam os vizinhos Bélgica e Alemanha. Este último, aliás, onde não raro surgem notícias de perseguições e assassinatos de imigrantes da Ásia Central, promovidos por grupos neonazistas.

A Europa é freqüentemente assombrada pelo fantasma do fascismo, o que preocupa o mundo todo. A Itália atual convive com um governo Berlusconi de traços fundamentalistas a proclamar a supremacia da civilização ocidental. Na Holanda, a extrema direita caminhava seguramente para o poder quando o processo foi interrompido pelo assassinato brutal do líder xenófobo Pim Fortuyn, a nove dias das eleições. Ironia ou vingança, Fortuyn era homossexual assumido.

O ápice das tentações ultradireitistas no Velho Continente aconteceu em 2000, na Áustria, com a ascensão do Partido da Liberdade. Num gesto inédito, todos os países da União Européia congelaram relações com a nação austríaca forçando a renúncia do neonazista Jörg Haider. A França não está imune a esta recorrente tendência fascista. Recordemos a ampla coalizão entre a direita francesa, comunistas, socialistas e verdes, não para eleger Jacques Chirac, e sim derrotar o então candidato da Frente Nacional e líder extremista Jean-Marie Le Pen.

O conflito suburbano na França expõe, portanto, grave contradição no país da liberdade, igualdade e fraternidade. Ao mesmo tempo em que se une para banir o fascismo, é impotente quanto à capacidade de oferecer as mesmas oportunidades aos jovens descendentes de imigrantes. Seus pais acorreram à nação esfacelada economicamente pela guerra e, com sua força de trabalho, ajudaram a reerguer e recolocar a França na condição de potência mundial. Passados 50 anos, contudo, continuam a viver do subemprego e do comércio informal, e ocupam áreas da periferia de grandes cidades, onde o índice de desemprego chega a 40%, três vezes superior à média nacional.

Os envolvidos nos distúrbios, entre eles 1.100 detidos em 12 noites, são, na maioria, imigrantes com origem na África islâmica, com idade entre 14 e 25 anos, têm problemas escolares e passagem pela polícia. E por mais que a polícia reprima e prenda, a violência continua, o que faz o governo pensar que há um grupo organizado por trás do levante. Pode ser precipitado o julgamento das autoridades. Os conflitos assemelham-se mais a uma convulsão social estimulada pelo rancor de duas gerações de excluídos dos benefícios do desenvolvimento econômico, que encontraram no terrorismo social o seu modo de protesto.

E se o medo do terrorismo fundamentalista islâmico não conseguiu destruir a postura pacifista e tolerante do presidente francês Jacques Chirac, a situação atual pode mudar sua forma de atuação. O resultado será, a médio prazo, restrições na entrada de imigrantes, a exemplo do que acontece na Inglaterra. E para os imigrantes que vivem lá, a repressão de agora pode traduzir-se numa insustentabilidade de convivência. O diálogo entre os jovens manifestantes e o governo já foi abandonado porque a insatisfação revelou-se muito maior do que o exposto num conflito localizado nos arredores de Paris.

A repressão tem sido a única saída para o governo pacificar a revolta, aumentando ressentimentos e confrontando amplas parcelas da população. Não será surpresa se Le Pen ressurgir como o homem que vá “devolver a França aos franceses”.


- Postado por: Santista às 07h56 AM
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Sandro Mabel chorou novamente
    
 


No primeiro dia de novembro, o Brasil e Goiás assistiram, via TV Câmara, a leitura do relatório do deputado Raimundo Lira, na representação feita pelo PTB nacional em desfavor do deputado goiano Sandro Mabel. É, sem dúvida, um espetáculo bizarro ver deputados como Edmar Pereira (MG), Nelson Trad (MT), Mendes Tame (SP), Chico Alencar (PSOL-RJ), para não citar tantos outros que compõem aquele conselho, posarem de vestais, pensando que estão enganando o nosso cidadão. Ledo engano. Os membros daquele colegiado deviam se lembrar de um colega deles (não me recordo agora o nome, mas isso não importa), que certa vez disse: “Todos que tão são, mas nem todos que são tão”, citação apropriada para o momento que vivemos.

Mas vamos ao que interessa a nós, goianos, ou seja: por que o presidente do PL de Goiás, Sandro Mabel, estava na condição de julgado naquele dia? Tudo começou com o destempero do mau-caráter Roberto Jefferson, que, ao ver seus interesses contrariados e uma denúncia de corrupção nos Correios, resolveu acusar um suposto pagamento de mesada a parlamentares, denominado por ele de “mensalão”.

Não se sabe por que e por quantas, o governador de Goiás, tão esperto, resolveu meter a colher de pau no assunto declarando que mais de um ano antes havia comunicado o fato ao presidente Lula, e que o mesmo não tomara nenhuma providência, deixando tudo como dantes na terra de abrantes. Marconi falou e viajou para a Europa, levando, na sua comitiva, a deputada Raquel Teixeira (que teria recebido a oferta de Mabel), e deixando aqui o seu fiel escudeiro, Carlos Alberto Leréia. Foi Leréia quem, não se sabe por que ou se bem mandado, resolveu revelar que fora Mabel que havia tentado comprar a deputada Raquel.

Raquel, por seu lado, a princípio negou tudo, tentou desconversar, mas, ao retornar ao Brasil, deixou rapidinho a sua secretaria (de Ciência e Tecnologia) e tratou de reassumir suas funções na Câmara, ao perceber que havia entrado em uma roubada que poderia custar-lhe o mandato. De volta à Câmara, e na condição de testemunha, Raquel então confirmou a fantasiosa história de Leréia e de Marconi. Pronto. Surgiu aí um motivo mais do que suficiente para o conselho poder cassar o mandato do presidente do PL goiano, para alegria de seus desafetos e dos sanguinários e “éticos” de plantão.

Decorridos 150 dias, porém, o que se viu foi outra história, com a aprovação do relatório de Lira por 14 votos a 0. Mabel deu a sua versão, Marconi não foi ao Conselho dar o seu depoimento (usou de suas prerrogativas e mandou um depoimento escrito, no qual confirmava a história de Sandro) e Leréia, ao depor, fez o mesmo que o seu chefe: confirmou o que o deputado liberal vinha afirmando. Além disso, na acareação com Raquel, Mabel foi mais convincente e conquistou no mínimo o benefício da dúvida junto aos conselheiros. Assim, se safou. Resta agora o plenário da Câmara, mas lá são outros 257 votos contra para cassá-lo, para a tristeza daqueles que torciam (e ainda torcem) por sua cassação.

Mas essa é uma parte de uma história em curso. Vamos à outra. Mabel chorou, se emocionou, mostrou a todos nós que é emotivo, humano. Mas o povo de Goiás, certamente, estará de olho nele, nas suas ações futuras, quer como parlamentar, quer como presidente do PL. Estará atento para ver se ele dará uma de mulher de malandro, que gosta de apanhar. Em outras palavras, vai querer saber se ele aceitará sentar-se à mesa com seus algozes do PTB e do PSDB, como tem feito até agora.

Quando saiu do PMDB, Mabel disse que o fez por falta de espaço no partido. À época, isso era compreensível, pois ele estava sem mandato, era um empresário bem-sucedido, queria ter vôo próprio. Foi então para o PFL, onde conseguiu uma votação expressiva para a Câmara. Novamente alegando falta de espaço, Mabel rumou para o PL, onde virou líder nacional da legenda. Com tal histórico, ele não pode agora curvar-se às circunstâncias e favorecer os seus carrascos. É piada falar em aliança do PL com PTB e PSDB.

Se Mabel continuar sentando-se, para conversar, principalmente com o PTB goiano – cujo presidente em Goiás, Jovair Arantes, em nenhum momento lhe foi solidário, assim como qualquer dos membros petebistas goianos –, passará a imagem ao povo de seu Estado, aos seus eleitores em especial (e olhe que não sou um deles), de que suas lágrimas, longe de serem de vergonha, de revolta e de indignação com a situação na qual o colocaram, são lágrimas de crocodilo. Passará ainda a imagem de alguém que não merece o respeito não só do povo e de seus eleitores, mas também de seus familiares e de seus amigos, e que estavam certos aqueles que queriam vê-lo fora da política do Estado.

Longe de querer dar conselho ao referido deputado, arrisco-me a dizer que, se realmente ele tem as qualidades que se atribuiu no momento de sua defesa no Conselho de Ética, reflita bem na hora de dar os próximos passos na sua carreira política, para que o povo não se sinta mais uma vez enganado por um de seus representantes. Nada de usar da falácia de que política é assim mesmo, a todo instante muda tudo, ou de que você é cristão e sabe perdoar. Se agir assim, insisto, será o povo, em sua maioria igualmente cristão, que não o perdoará.



- Postado por: Santista às 08h29 AM
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Um beijo na hipocrisia
    
 


A socialite teme que o marido fique pobre e ela perca seu luxo, suas compras em Miami, as jóias. A solução é comprar revistas de coluna social para listar os bons partidos disponíveis para o próximo golpe. A amiga não pode entrar em uma loja que, involuntariamente, coloca sua mãozinha delicada em algum produto em exposição e sorrateiramente o coloca no bolso, uma cena singela. O marido desta, por sua vez, tem um caso com sua advogada, a quem engana falando de uma separação que nunca aconteceria.

Enquanto isso, uma recatada evangélica se esfrega em um desconhecido no banco do ‘busão’ e lhe mostra a cinta-liga vermelha, escondida pelo comprido vestido sem decotes. Os dois saem do ônibus e vão fazer sabe lá o quê. A sogra, uma fofoqueira de mão-cheia, não se arrepende de ter feito uma carta anônima enviada ao próprio filho, anunciando a traição de sua noiva. A informação é falsa. O objetivo é unir seu queridinho com a moça da cinta-liga. A nora que toda sogra pediu a Deus. Tudo isso se passa na Cidade Maravilhosa.

No interior de São Paulo, três “breteiras” se insinuam e se oferecem explicitamente a qualquer um que tenha algo abaixo da fivela. Junto a elas, um rapazinho meio esquisito. Sua mãe aproveita a casa vazia e, escondida, namora um peão bem mais novo que ela, inspiração constante das breteiras em suas noites solitárias.

A protagonista tenta, mais uma vez, infringir a lei e entrar clandestinamente na América.

– Esta novela é ótima.

– Pois é, e olhe que ela começou bem fraquinha.

– A autora é muito boa, parece que ela lê o que a gente quer assistir.

– E esse Júnior, será que não vai se resolver não? Acho que ele deveria virar homem no último capítulo.

– Não está sabendo? Vai beijar na boca do Zeca. Li na revista, você acredita?

– Será? Acho que a Globo não vão ter coragem não.

– Você que pensa. A cena já foi até gravada.

– Que falta de vergonha, né? Deveria ter alguma coisa para controlar o que passa na televisão. Imagina só, dois homens se beijando.

– Pois é, lá em casa, não vou deixar o Cleverson e a Jenifer assistirem o último capítulo não.

– Você faz muito bem. Se é que vão ter coragem mesmo de colocar essa aberração no ar.

– Só vendo para saber.

– Vamos esperar, né?


- Postado por: Santista às 08h24 AM
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