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Lula e os boiotas
    
 


Eram os últimos anos da ditadura militar, mas o governo de Ary Valadão enfrentava robusta oposição na Assembléia Legislativa de Goiás. O deputado estadual Derval de Paiva (MDB) era um dos seus principais críticos. Um dia, num discurso mais inflamado, chamou o governador de “boiota”. E explicou: “Para os senhores que não sabem, boiota é mistura de boi com idiota”. Editor de Política do Diário da Manhã, Marco Antônio da Silva Lemos estampou na primeira página o neologismo: “Derval chama Ary de boiota”.

Eram tempos de contestação. Derval exprimia a indignação a um governo imposto. A ditadura, que fora implacável em Goiás cassando um governador (Mauro Borges), o prefeito da capital (Iris Rezende) dois senadores (Juscelino Kubitschek e Pedro Ludovico) e eliminando fisicamente opositores, como o deputado José Porfírio, estava engasgado a muito na goela da oposição.

Nos tempos atuais, as incontinências verbais não se justificam. O país vive um regime democrático pleno. Jornais, rádios, revistas e TVs veiculam o que querem. Inclusive delírios da Veja como os dólares de Fidel a Lula.

Não se entende, portanto, manifestações como as do líder da oposição no Senado, Arthur Virgílio (PSDB), que promete “surrar” Lula por conta de supostas ameaças a sua família. Especialistas em grampos, os pefelistas ACM Véio e ACM Jr. estão provando do próprio veneno. Depois de grampear todo mundo na Bahia – que o diga o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB) – reclamam que estão sendo grampeados. “Juninho Malvadeza”, que também ameaça meter a mão em Lula, não explica o relatório do conselheiro Pedro Lino, do TCE-BA, que aponta esquema de caixa dois de R$ 101 milhões na Bahiatursa. Até mesmo a telúrica senadora Heloísa Helena (Psol) ameaça esbofetear o presidente, enquanto sua colega, a deputada-juíza Denise Frossard (PPS), defende um "tapa político".

O Parlamento foi criado para ser a casa do diálogo. Noutros tempos, o Coliseu era o local destinado aos adversários. Muita coisa mudou, mas, infelizmente, muitos políticos ainda estão impregnados com a catinga do coronelismo. Por isto é explicável a atitude dos brigões. Virgílio é de família tradicional na política amazonense. Heloísa foi eleita com o dinheiro dos usineiros alagoanos, Denise está irritada com a Reforma do Judiciário e o fim das mamatas. Os ACMS dispensam apresentações.

Em tempos de aftosa, não faz mal nenhum vacinar os nobres pares. Afinal, pelas suas atitudes, eles demonstram que são todos boiotas. Percebe-se pela baba a escorrer-lhes pelos beiços.


- Postado por: Santista às 09h39 AM
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As lágrimas de um companheiro
    
 


Delúbio chorou. Ele chorou mesmo. Chorou porque tem sentimento, tem alma.

Delúbio Soares chorou para não fazer como muitos fizeram nas décadas de 60 e 70, que, dizendo-se de esquerda, simplesmente se escondiam dos familiares dos que iam presos ou tombavam nas linhas de frente contra a Ditadura Militar de 64.

Delúbio – que desde a primeira declaração de Roberto Jefferson (é ele mesmo, aquele da tropa collorida de Fernando Collor) foi chamado diversas vezes para depor e sofreu assédio intenso da imprensa – manteve até então no rosto não um certo sorriso, mas o seu sorriso. Sorriso de quem tem vergonha na cara, sorriso de lealdade, de companheirismo, de quem teve berço sólido em um lar humilde. Delúbio Soares sorria para não xingar aqueles que, até poucos dias atrás, o bajulavam, faltando pouco lamber os seus sapatos bem engraxados, mas que de repente começaram a lhe atirar pedras.

Quando da sua expulsão no sábado, dia 22, no momento em que se defendia no Diretório Nacional do PT, ele foi às lágrimas, sim. Eram lágrimas de um homem que se via diante de um tribunal composto em sua maioria por pessoas que o tinham procurado muitas vezes em desespero, e às quais ele, também muitas vezes, havia estendido as mãos, mas que agora estavam ali para implacavelmente ouvi-lo pedir clemência – clemência, vejam só, por atos praticados em benefício deles, pura e tão somente para ajudá-los. Eis aí a mais fina ironia de uma peça tão estranhamente escrita pelo sopro democrático que estamos vivendo.

Delúbio chorou. Chorou para não ter que seguir os conselhos daqueles que outrora se diziam enojados com comportamentos como o do ‘senhor’ Roberto Jefferson, que, se algum bem fez ao País com a sua delação que quisera ser premiada, foi deixar o seu processo ir em frente no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, que recomendou ao plenário a sua cassação. Os fatos, até aqui, demonstram não ser Delúbio um corrupto. Ele é apenas um dos filhos de um casal humilde de Buriti Alegre, que, forjado na luta e convicto de seus ideais, jamais se orientará por aqueles que, para aparecer, indicam caminhos, propõem encaminhamentos que nunca serão os que o Brasil precisa. E falar agora em reforma política é o mesmo que brincar com a inteligência do povo brasileiro, diante das três CPIs em andamento e do punhado de medidas provisórias a todo momento trancando a pauta de votações no Congresso. Isso sem falar nos outros tantos assuntos de maior relevância que precisam ser apreciados e votados. Ora, para se fazer uma reforma política, é preciso mudar a Constituição, o que significa necessidade de dois terços dos votos do Congresso.

Fazer ilação sobre a compra de um carro e de uma fazendinha, isso então ‘é muita sacanagem’ – como se diz por aí –, para não dizer covardia, de alguém que não conhece os pais de Delúbio. É em momentos como este que se conhece aqueles que gostam de tirar proveito da desgraça alheia. Quanto a outra ilação, a de que está passando da hora de o governo de Goiás, via Secretaria Estadual de Educação, lotá-lo em uma sala de Matemática, não sei bem se é isso o que Delúbio quer ou precisa. Mas que é chegado o momento de o governador dar um basta nisso e mandar o seu delegado parar com esse inquérito idiota, disso, sim, não tenho dúvida, e está passando da hora de ser feito.

Também o governador precisa fazer gestões junto ao Ministério Público para que o senhor Fernando Krebs procure outro assunto para dar vazão à sua saga sanguinária. Pois, em sã consciência, querer fazer o povo acreditar que salário de professor recebido, como ele diz, indevidamente promove enriquecimento ilícito é no mínimo uma piada. E o governador já reconheceu os relevantes esforços do professor no governo Lula para trazer recursos para Goiás.

O que se deve observar agora, no que se refere a Delúbio Soares, não é se ele cometeu ilícitos, uma vez que isso já está sendo apurado pelas CPIs, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, que fatalmente vão chegar a uma conclusão e propor as punições cabíveis. Que ele siga com o seu calvário. O importante é que, dessa crise ora instalada, sejam tiradas lições necessárias para que possamos ter propostas de avanços em nossa ainda incipiente democracia, pois isso nos ajudará a cobrar do novo Congresso e do novo governo que serão eleitos no ano que vem a implementação das reformas necessárias para o desenvolvimento do País.

Os brasileiros estão cansados de saber que, com as CPIs e o Orçamento 2005 a ser aprovado, nada mais será votado no Congresso. Portanto, chega de conversa fiada e de falácias.


- Postado por: Santista às 11h09 AM
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