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Papéis vitais e sociais
  


Interessante como as pessoas cobram determinada performance das outras, conforme a cultura, o sexo e a idade. Já na infância, expressões como “homem não chora” e “menina não brinca de carrinho” vão inculcando comportamentos que o grupo social espera de seus membros. Com o passar do tempo, novos grupos surgem na vida do indivíduo, cada um a seu modo tolhendo a espontaneidade, as iniciativas e a originalidade, de tal forma que, se esse não for dono de uma forte dose de auto-aceitação e idéias próprias, é amortalhado pelo grupo, para formar a imensa maioria de medíocres.

Medíocre, aqui, não tem a menor conotação depreciativa. Refere-se tão-só à medianidade, a parcela majoritária das pessoas que passam pela vida como urnas fechadas, deixando por única contribuição alguns filhos para continuidade da espécie e quase nada se enriquecendo interiormente. Por mais se diferenciem individualmente, na prática constituem massa uniforme, ajustadas aos mesmos valores superficiais, hábitos e usos, anuladas pelo grupo social a que vinculadas. Se o fato é grave, visto ao nível dos grupos primários, mais fulminante se torna quando o processo de socialização é realizado pelos meios de comunicação de massas e a propaganda.

Na yoga e no hinduísmo tradicionais, é marcante a preocupação com afirmar a individualidade, não no sentido egocêntrico dominante no protestantismo, mas no de promover a realização pessoal, numa perspectiva inclusiva de todos os seres, experiencialmente diferentes e desiguais, mas dotados dos mesmos potenciais divinos, que manifestarão de qualquer modo, eternidades afora. Mas é no rebirthing (renascimento; pronuncia-se ribêrfin)), movimento integrante do moderno espiritualismo americano e ensinado por muitos psicólogos, que a imposição de papéis e o poder do meio sobre a individualidade merecem mais demoradas reflexões. O rebirthing, denominado “yoga do século XXI” por seus profitentes, é um conjunto de técnicas respiratórias, de relaxamento e meditação que cultiva a saúde integral, juventude e longevidade, surgido no Ocidente, tendo por substrato filosófico os mesmos princípios da yoga e do hinduísmo, que repagina emocionalmente o praticante até o primeiro trauma, o do nascimento.

Os rebirthers (renascedores) rejeitam a crença dominante na doença, velhice e morte, ensinando que estes três fenômenos são decisivamente auto-induzidos e estimulados pela cultura. Não é por outra que o rebirthing deveria surgir em sociedade que não a hinduísta, na qual predominaram por milênios o sistema de castas (papéis determinados pelo nascimento) e o ashrama ou períodos de vida, com diferentes tarefas a serem cumpridas.

Um renascionista recusa-se a sequer ouvir sobre doenças, não fala sobre idade e velhice e os mais caprichosos não lêem sobre estes temas e chegam a mudar de canal, se um médico vai falar disso na TV. E não aceitam como normais os papéis atribuídos pela cultura dominante, em matéria de idade. É fato que as pessoas “exigem” que alguém tenha doenças e aparência características, como colesterol alto, reumatismo e disfunção erétil depois dos quarenta, quase a empurrar o infeliz para o túmulo.

Sai fora, bicho! Tá me tirando? Me exigiram, neste ano, um check-up de 25 exames, e não tenho nenhuma doença, cara! E vou mudar essa foto aí de cima e lado, pois mostra uma vêeira que já era.



- Postado por: Santista às 10h21 AM
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New Orleans forever
  
 


Sempre tive uma grande vontade de ir a Nova Orleans. O jazz tocado pelos músicos daquela terra me seduzia como que por encanto. Eu tinha a sensação de que o trompete que se ouve à beira do Mississippi soa algo de diferente a tagarelar a alma crioula franco-negra no mais sexual improviso, talvez por sonorizar nas raízes do ragtime e do blues, principalmente quando este contribui com passagens melancólicas. Tudo muito acentuado. Minha intuição levava a um sentimento assim.

Alguma força estranha me empurrava para Nova Orleans. Em várias vezes que estive nos Estados Unidos da América, até bem perto de lá, nunca dava certo de colocar no roteiro de viagem a sonhada visita. Ouvia maravilhas sobre o local. Nada de jazz fora dali recebia tanto elogio. E a influência francesa na colonização daquele pedaço da Louisiana aumentava-lhe o charme. Ainda que quisesse, eu não conseguia desvendar se feitiço ou verdade a atração a me puxar, qual sereia de Homero, para os efeitos dessa magia. Hoje entendo porque o passarinho é atraído pela Naja no deserto. Pura forma hipnótica de conquista.

A  minha filha que morou em Ohio, Columbus, aguçava-me o interesse ao comentar sua ida a um certo Preservation Hall em New Orleans (gosto da pronúncia cantada, nóólins ou nu-ór-líns, tem muito a ver com eles da terra). Casarão antigo, bem rústico, assoalho de madeira, de aparência de lugar abandonado, as pessoas se espalhavam pelo piso, e ouviam o jazz na inteireza de onde se originou. Sem nenhuma influência eletrônica. O som cru de cada instrumento, coisa de fundo de quintal sem tirar e nem pôr. Meu sonho de consumo.

A hora chegou. Poucos dias antes do Katrina – notícias dele já estavam nos instrumentos de previsão de furacões –, fui, ansiosamente acompanhado da filha  e do eterno companheiro Gabriel, pras bandas do French Quarter, o olho da alucinação jazzística. Foi um lamento antecipado pelas enchentes devastadoras. Posso voltar a ouvir interpretações iguais, melhores nunca. Era como Louis Armstrong perguntar, "Do you know what it means to miss New Orleans?" (Você sabe o que significa sentir falta de New Orleans?) na música que escreveu, cantava - quase falando - e fazia seu trompete sair do solo para a eternidade. A catástrofe dizimou o coração humano. Há silêncio no saxofone abandonado na água. Narrar mais o quê, meu Deus?


- Postado por: Santista às 12h17 PM
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