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Men no pausa
  
 


Quem não se lembra das boas séries de TV que quebravam a monotonia da vida? Particularmente, fui um daqueles que apreciavam a explosão da criatividade presente nos seriados de ficção científica. Perdidos no Espaço, com o dr. Smith e o robô, “não tem registro”. Jornada nas Estrelas e nosso querido Spok. Sonhos de adultos entretendo crianças, em um prelúdio do que viria nas décadas seguintes.

A vida imitando a arte!

Muita coisa mudou de lá para cá. E pelo visto ainda teremos mudanças que a ciência hoje sequer imagina. Só que o avanço humano não acompanhou a tecnologia. Vivemos numa sociedade primitiva de valores afetivos, morais, éticos e de bom senso. Kafka teria razão? Ser humano ou barata? Como exemplo, é só observar o descaso político no primeiro mundo para com sua comunidade negra e pobre em New Orleans: descaso, apatia, frieza temperados pela arrogância. Algo que nós do terceiro mundo já sofremos na pele.

A ficção científica trouxe-nos o paradigma do homem-máquina: um ser pensante quase sem afetos, cartesiano, capaz de modelar e condicionar seu comportamento, suas emoções e sua vida. Tudo de forma previsível e linear, qual triturador de pia de botequim. O homem de lata, esquálido e enferrujado, do Mágico de Oz desesperado e perdido atrás de um coração. Ele até descobriu a teoria da inteligência emocional, muito embora não a pratique, e se o fizer... só com seu manualzinho de programação neural. Moderninho! Este é o fruto direto da frieza, de um pensamento positivista que em si não integrou a própria revolução científica que criou. E esse é o modelo adotado por nosso ensino superior, que adora uma fotocópia. Se for de velharia ultrapassada, com odor de naftalina, melhor.

Este homem-máquina dá-se até o direito de não parar: não tem férias, não sonha, até seu sexo é mecânico, e tem inclusive a impressão de que controla tudo, qual um manipulador de ratos em experimento. Aliás, a manutenção deste tipo de “ciência” nos cursos de psicologia mereceria um prêmio “Pocotó”, categoria “investimento humano”.

Esse é o retrato da mania presente em nossa sociedade. A mania é um estado psíquico no qual existe um humor alterado persistentemente elevado, expansivo ou irritável. Isso inclui auto-estima inflada, mania de grandeza, necessidade de sono diminuída, perda de concentração e busca desenfreada por atividades intensas. Tal estado retrata a euforia descrita nas bacantes da Grécia antiga, no qual o indivíduo rebaixava sua consciência, e por não encontrar seus limites perdia-se no espaço de sua grandeza imaginária, tragado pelo buraco negro de seu destino.


- Postado por: Santista às 09h28 AM
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Hino e bandeira nacionais
  
 


O manifesto de patriotismo brasileiro demonstrado pelo soerguimento da bandeira e a cantoria do hino, em ocasiões esportivas ou políticas, deveria ser mais simples para facilitar a vida do nosso povo humilde, que sempre se confunde quando canta “Brasil um sonho intenso... Brasil de amor eterno”, na divisão das partes do hino.

A bandeira não seria um símbolo brasileiro, com as cores representativas (verde floresta, azul celestial e água, amarelo de riqueza e branco pacífico), já que na realidade o desenhista francês Jean Baptista Debret homenageou a origem européia da família imperial quando fez o projeto da bandeira naquela época, inspirando-se nos estandartes da cavalaria de Napoleão Bonaparte. O verde era a cor da casa de Bragança, o amarelo era dos Habsburgos, o azul e branco vestiam o próprio imperador. O lema Ordem e Progresso é do francês Augusto Commte, fundador do positivismo e pai da sociologia. Benjamin Constant sugeriu ao pintor Décio Vilares que representasse os Estados como estrelas, colocando-os na disposição semelhante às constelações visíveis no hemisfério sul à época da proclamação da República.

Resumindo: a bandeira brasileira tem as cores das famílias nobres da Europa, homenageia o famoso nazista alemão, possui um lema e um desenho francês, é difícil desenhá-la (tente acertar a posição exata das estrelinhas) e ainda há no hino uma dificuldade para interpretá-lo, pois sua sintaxe é truncada em orações de ordem inversa. Na letra há vocábulos mais raros. Ninguém vai por aí pronunciando retumbante, plácido, fúlgido, resplandece, fulguras, clava, lábaro, florão, ostentas, guerrido, etc. Produz cacofonia: “heróico brado” e herói cobrado. E ainda a letra de Joaquim Osório Duque Estrada deixou uma interpretação pejorativa quando compôs o “deitado eternamente em berço esplêndido.”

Houve uma onda de incentivos para mudar a letra do hino na década de 90. Um poeta – não me lembro do nome – disse que “o povo está acostumado a rimar paixão com emoção e amor com calor, pode reparar nas letras das músicas”, dizendo que ninguém decoraria toda a letra do hino. Exagero à parte, há “loucos” que sabem de cor Os Lusíadas, de Camões. O hino seria fichinha.

Talvez, simplificar a bandeira facilitaria sua reprodução artesanal. Difícil é esquecer da boa marcha melódica registrada por José Maurício Nunes Garcia e Francisco Manuel da Silva. Enfim, a idéia de mudar o hino evitaria a confusão na hora de cantar “amor eterno” e “sonho intenso”, onde muitas bocas se fecham, deixando para copiar os mais dotados de memória, evitando, assim, a eterna dúvida que fica no ar, quando vemos as bocas sempre fechadas por não saber a letra, ou por respeito patriótico, ou ainda por medo de errar. Para terminar em clima de bandeira nacional francesa, digo, brasileira, pode ser também que a boca fechada seja para não entrar mosquitos (en bouche serée n’entrent des mouches).



- Postado por: Santista às 09h08 AM
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Guerra e paz
  
 


A Declaração e o Programa de Ação para uma Cultura de Paz, unanimemente aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 13 de setembro de 1999 – e que culminaram com a celebração do decênio 2001-2010 como da ‘Cultura da Paz e Não Violência Para Todos os Jovens do Mundo’– visavam incrementar as iniciativas da sociedade civil para promover a vontade política em favor dos valores democráticos, o respeito e o exercício pleno dos direitos humanos, forjando atitudes e comportamentos acordes com a dignidade de todas as pessoas.

Esses esforços, entretanto, não se revelaram suficientes para impedir o aumento dos conflitos étnicos e interculturais, do racismo e da xenofobia – assim como a ampliação da distância que existe entre ricos e pobres e se reflete na marginalidade de mais de 60% da humanidade, na destruição do meio ambiente, na progressiva violação dos direitos humanos, no genocídio silencioso da fome – e propõem às novas gerações o desafio de assumir valores e atitudes que lhes permitam atuar com nova visão em favor da sua própria vida e da dignidade de todos os seres humanos. Um papel protagonista neste contexto é o da Educação, que deve incluir a formação para a tolerância, a justiça, o desarmamento, os direitos humanos, o respeito pela diversidade cultural, a preservação do meio ambiente, a prevenção e resolução pacífica de conflitos, a reconciliação, a não violência e a cultura da paz.

Vivemos imersos na chamada ‘crise da modernidade’ e as manifestações que a definem: o consumismo desmedido, o culto do corpo e a cultura da imagem, o esgotamento dos discursos ideológicos e da política partidarista, a convivência na diversidade como desafio, o individualismo exacerbado, o conformismo social, a mercantilização do conhecimento e a crescente globalização de uma cultura da violência e da guerra. A sucessiva escalda da violência fixa em nossa memória a magnitude das tragédias, o sofrimento das vítimas e suas famílias: estamos cada vez mais vulneráveis e sujeitos a sentir na própria carne o sofrimento diário de milhares e milhares de seres humanos – condenados pela violência direta dos ataques indiscriminados das potências bélicas e pela violência estrutural da pobreza, da injustiça, da fome, da enfermidade, da absurda assimetria de um mundo abominavelmente desigual.

Alguém afirmou com razão que as injustiças de hoje são as guerras de amanhã. As ações dos governos contra o terrorismo não nos convencem de que estes atos – e tão-somente estes – são os únicos crimes contra a humanidade ou os únicos atos de guerra – e a história das grandes potências está cheia de atos monstruosos e unilaterais de guerra, alguns deles bem recentes. Reagir diante da violência com mais violência indiscriminada reafirma o princípio do terrorismo – e nada se resolve desta maneira. Ignorar que a miséria, a fome e a injustiça em que vivem milhões de pessoas – a maioria do planeta – são as bases que alimentam o desespero e o fanatismo significa persistir nos mesmos erros de sempre. São estas causas profundas: o descumprimento constante das contínuas promessas do mundo rico aos mais empobrecidos, as atuações unilaterais de rapina, o intercâmbio desigual, satanização do Islam – que explicam a violência suicida e fanática.

Continuar exaltando os mais baixos instintos violentos, a espetacularidade da força e a sua utilidade como meio de poder, como fracasso da política, nos conduz inevitavelmente a uma atmosfera bélica irrespirável – e que consolida socialmente a cultura da violência. Nos tempos que correm os valores da justiça, da prevenção dos conflitos, da sua resolução pacífica, justa e não violenta, da educação para a compreensão internacional e da mediação, devem ser resgatados urgentemente pelas novas gerações – antes que a humanidade, elidida a civilização, regresse à barbárie.



- Postado por: Santista às 09h05 AM
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Como esquecermos nossas histórias
  
 


Esquecemos tantas coisas. Chaves do carro, nome do porteiro do prédio, o gosto da boca daquela mulher (quem seria mesmo?) que amamos um dia naquela manhã de sábado, o ponto da prova de fisiologia. Esquecemos CPIs que nada viraram, o nome de um cara citado pelo publicitário Marcus Valério, o último filme de Bertolucci. E a leitura de poesias, passeios pela praça, conversas de pé de ouvido. Tudo no passado incerto e escondido.

Esquecemos passivamente cada assunto irrelevante que perambula pelo nosso córtex cerebral e acaba por cair – neste exato momento – em algum canto disperso da cabeça, num fundo imagético e biológico – encoberto e fechado em pequenas entranhas de proteínas e reminiscências de gestos e palavras.

Apenas, fiapos de lembrança persistem no tempo: o outdoor que cruzamos na avenida, o céu azul daquele dia de setembro (ou seria outubro?) de 1999, a vitória da seleção naquele jogo do Maracanã com Branco, Leonardo e Romário (ou seria Túlio?). Tudo cai no esquecimento. Ou será quase tudo? Esse esquecimento passivo é fruto do corre-corre diário e massificante, do estresse que nasce do trabalho alienado que dita nosso tempo de ócio. Descansamos para voltar à produção. Somos automatos da cadeia industrial, prontos para anestesiar sonhos, vontades e lembranças.

E enquanto trabalhamos, construímos inúmeros atos repetitivos, mas que se concentram em um único fato de vida que pode ser representado também em um único quadro de Velasquez ou numa atômica palavra de Aristóteles. Essa repetição amortiza a liberdade e a capacidade de pensar. E sem pensamento persiste o fim da memória, esse sintoma de um mal de Alzheimer coletivo. É a distância do que amamos e devemos ignorar que provoca esse esquecimento profundo e doente. Quanto mais longe do espírito, mais próximo do vazio. Se a memória é o que direciona o sentido da existência, o oposto será o fim. Florbela Espanca reinterpreta o esquecimento, sem devaneios. Apenas um grito desesperado de quem lava a memória com sabão de quadro e detergente de desamor: “Esse de quem eu era e era meu/ Que foi um sonho e foi realidade/ Que me vestiu a alma de saudade, para sempre de mim desapareceu/ Tudo em redor então escureceu, e foi longínqua toda a claridade!/ Ceguei... tateio sombras... que ansiedade! Apalpo cinzas porque tudo ardeu!/ Descem em mim poentes de Novembro...A sombra dos meus olhos, a escurecer.../Veste de roxo e negro os crisântemos.../ E desse que era meu já me não lembro... Ah!, a doce agonia de esquecer/ A lembrar doidamente o que esquecemos...! Se Espanca corta os pulsos pelo esquecimento, Hannah Arendt retoma a idéia dos espíritos cibernéticos impregnados pelos regimes totalitários.

Escancara o empobrecimento da experiência e a debilidade da memória: “Estamos ameaçados de esquecimento, e um tal olvido significaria que, humanamente falando, nos teríamos privado de uma dimensão, a dimensão de profundidade na existência humana.”



- Postado por: Santista às 11h50 AM
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