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Ainda que o amor vença o ódio
  
 


Juro que amo tudo na vida. Amo até o córrego sujo que nada de cabeça para baixo rumo ao rio que, por sua vez, corre num abraço definitivo (de quem se envelhece no ciclo final da vida) para o mar.

Amo desde a pedra e sua força centrífuga que anula a dor do estilingue dos assassinos à grama e suas línguas, fiapos verdes de seda, que nos aliviam os pés na caminhada misteriosa dos dias; amo as borboletas e seus vôos desengonçados de cores e riscos, assim como amo as formigas e suas pernas camufladas de serras, roçando o caminho que não é caminho no mundo microscópio do mundo.

Amo as outras vidas que devíamos ter para poder respeitar as outras vidas, essas mesmas que as nossas limitações concorrem em ignorá-las como a do pai ou da criança que foi esquecida e levada ao abrigo dos rejeitados.

Por que amar e não odiar, porque, na verdade, a vida é sempre essa seqüência de fatos, cenários de chuvas e poeiras, de perdas e conquistas, de homens, mulheres, gays, misóginos, enfim, dos que vêem a si mesmos no profundo sentimento de suas individualidades, clarão que nos acorda da escuridão e que nos empurra à comunhão dos atos.

Na nossa existência não há como não amar as coisas indiferentemente da enjoeira que temos conosco em recusar outros tipos de desejos como se fôssemos, na verdade, senhores do mundo, donos de todas as vidas e de todas as ações e fenômenos que acontecem em terra.

Não há como deixar de amar ou se insinuar sempre quando em nossas células forem marcadas as chances de perdermos a nós mesmos, seja pela idade já quase no final, que nos traz a velhice e seus sintomas de volta a Deus, seja através de um tipo de doença que nos mata de uma vez ou aos poucos no relógio silencioso de Deus: eis que é essa somente a sua vida. Não mais que isso. Não exija dela senão o amor!

Não consigo sentir o ódio, embora o reconheça querendo persistir nos outros e esborrifar em mim suas gotas sujas e contaminadas pelo pessimismo de uma sociedade vendida à riqueza inútil dos que se julgam proprietários de tudo, inclusive de Deus, pastores infernais da fortuna alheia e padres insensíveis dos rebanhos vendidos de ilusão.

Mas ainda assim vejo também o ódio nos outros fanáticos religiosos, em suas mãos carimbadas de cédulas de fé como à espreita de subir ao túmulo do pai para mijar em seu mármore como única forma de negligenciar a honra dos altivos e de se declarar nefastos para a ceia final dos incrédulos.

Não acredito que Deus há de persistir no mundo esses odientos saltimbancos; em torná-los sementes multiplicadoras de perversões nos jardins que carregamos esquecidos em nossos corações.

Não creio que Deus há de permitir que esses abismos floresçam como chagas de nossas pobres paisagens e que nos empalideça para sempre como pobres elementos sem convicção, sem amor e sem paciência.

Ontem, lá fora, pobres leprosos pediam esmolas, enquanto amáveis almas sobreviviam seus corpos em liturgias nos quartos dos hospitais depois do diagnóstico do câncer fatal que os afastará de nós.

Não há como acreditar que o ódio e não o amor prevalecerá nas lágrimas que secam o santo, este que ainda ajoelhamos diante dele.

No céu não há terra que resista à vontade de Deus.

Ignorá-lo é ver o outro lado morto da vida.


- Postado por: Santista às 01h48 PM
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