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Depois de partir
  
 


Claro, simples e direto: “Aqui está meu primeiro post, a introdução, o manifesto. Este é o diário público de um aspirante suicida.” Assim começou o italiano Ciro Eugenio Milano, 26, em 18 de abril, seu blog na internet, o primadipartire.weblogs.us. Ele tomou uma escolha. “Agora as idéias clarearam, sei o que farei e sei quando o farei. Eu, na plena posse de minhas faculdades, escolhi conscientemente me suicidar.” Durante os quatro meses em que manteve seu diário eletrônico, o jovem publicitário justificou-se: “Tenho uma visão pessimista da vida. Estou mais próximo dos 30 que dos 20. Que balanço posso fazer destes anos? Um aproximativo ‘mais ou menos’. As coisas melhorarão, no futuro? Sou levado a crer que não. Quero ir antes que o declínio seja por demais pronunciado. Por que envelhecer?”

No fim da noite do dia 10 de julho, apesar dos esforços de alguns de seus não muitos interlocutores, Ciro matou-se. Ele não tomou uma overdose, nem passou com uma moto em alta velocidade por um cabo de aço esticado na altura da cabeça para decapitar-se. Também não sufocou-se com monóxido de carbono de um escapamento de carro – sugestões feitas por ele mesmo no blog. “Talvez seja um artista fodido, e o meu suicídio será a minha maior obra de arte. Talvez seja um idiota fodido, e meu suicídio será a última de minhas cagadas. Talvez esteja apenas fodidamente fodido.” Em sua encenação real, o jovem enganou a todos e suicidou-se em um ritual; seria muito simples se assim não fosse. Sarcasticamente, dez dias antes da data marcada, pulou da ponte San Michele, 70 metros acima do rio Adda, em Paderno, mesmo local onde um amigo se matara um ano antes. Ele seguiu a sugestão de Fra, um dos mais assíduos freqüentadores do Prima di Partire, para, com uma cadeira de piquenique, transpor um “problema muito prático”: o parapeito de 1,60 metro da ponte.

Depois de partir, Ciro continuou. Em posts pré-programados, revelou que não era Luca K. (seu apelido e inegável referência a personagens de Kafka prisioneiros de uma situação absurda). Só com este texto conseguiram associar o corpo no fundo lamacento do Adda ao blog. Gabou-se na mensagem deixada na última segunda-feira por não ter sido descoberto pela polícia ou pela família e de manter-se praticamente anônimo. “Eu não sou demais?”

Mas apesar de todo convencimento e imobilidade apresentados por Ciro, há algo de arrependimento em alguns de seus posts. “Há coisas que gostaria de fazer, antes de partir. Um pouco como a última refeição de um condenado à morte. Gostaria de visitar o Japão e Nevada. Há livros que gostaria de ler ou terminar. Há shows aos quais gostaria de ir”, postou em 28 de maio. Lamentou ter discutido coisas em reuniões de trabalho que não chegaria a fazer. Em 7 de julho, três dias antes de partir, se sentiu melancólico ao ir ao mercado. Comprou uma garrafa de Martini Bianco, pão, Coca-Cola e provolone de búfala. “Talvez esta seja a última vez que faço compras: tenho comida suficiente em casa. Talvez, instantes antes de partir, vou chorar.” Ciro foi morto por seu narcisismo, pela grandeza que sua “maior obra de arte” ou sua “última cagada” tomou. Como poderia o prazo se encerrar e um cadáver não aparecer? Luca K. acabou aprisionado, foi engolido pelo Prima di Partire. Seu criador não poderia passar-se por mentiroso. Aqueles que não acreditavam nele e que o agrediam foram obrigados a engolir seco aquele defunto coberto de lama e melancolia: “Tchau a todos, é tarde, estou cansado, vou suicidar-me. É um pouco diferente de como esperava


- Postado por: Santista às 09h28 AM
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Terra de cegos
  
 


As coisas têm ocorrido de forma tão rápida no mundo que qualquer ilusionista se surpreenderia se tentasse captar a realidade do conteúdo das mesmas. Ao agir assim, seria enganado por suas próprias sensações, dada a extrema volatilidade que é imposta aos acontecimentos, de forma que aquilo que hoje nos provoca uma impressão, amanhã se apresenta com fisionomia diversa.

Isto tem dado a conotação – para alguns é claro – que a natureza ou a essência de tudo aquilo que ocorre muda todos os dias de acordo com os fatos ou conforme a vontade de alguém. Assim é que justificam eles a modificação de alguns comportamentos, estabelecendo a equivalência da mesma, com a alteração do formato das nuvens.

A nuvem é hoje, portanto, modelo justificador de revisão do modo de julgar o que se vê, para, a partir daí, estabelecer uma maneira de se avaliar ações e procedimentos.

Stratus, cumulus e cirrus abandonaram o seu estatuto dentro da meteorologia, desceram das alturas dos céus, e vieram ocupar as planícies terrenas, que exigiram a sua presença para auxiliar no convencimento de que às vezes, mudar de rumo, de direção ou de propósitos é necessário, pois é o que é costumeiramente demonstrado por elas, as nuvens, lá no espaço celeste.

A nuvem e o mercado mudam todos os dias, e ambos tem servido para nortear os caminhos humanos. Quase sempre, quando ouço alguém se remetendo a uma destas duas referências, para explicar as mudanças que julga importantes, observo que esse alguém invariavelmente quase nunca tem a formação técnica que possa conferir credibilidade para a sustentação teórica que é feita.

Assim sendo, eu tenho me sentido bem melhor quando manifesto solenemente o meu desprezo por aqueles que adotam estas posições, e isto se dá, pela disciplina a que me impus, de simplesmente desconhecer essas figuras grotescas, que pretendem filosofar sem interrogar, e convencer sem estabelecer a necessária e saudável dialética.

Quando vejo algum técnico falando na televisão, por exemplo, sobre a previsão do tempo, ou sobre a queda das bolsas, ou sobre o aumento do dólar, compreendo que esta é uma constatação fundamentada em dados, que autorizam o referido técnico a expor sobre tal questão que é da sua competência. Não é preciso dizer que, mesmo escorado em dados concretos, muitas vezes suas previsões são frustradas, e os resultados obtidos são absolutamente diversos daqueles que se acreditava prováveis.

Ora, se a nossa natureza já nos autoriza a descrer, ou a desconfiar, da previsão do tempo feita por quem sentou-se num banco de escola, fez especialização, mestrado e doutorado no assunto e erra, por que acreditar então num leigo qualquer, que vem dizer que os rumos da nossa vida mudam de acordo com o mercado, ou mudam como as nuvens?

Aceitar isto é aceitar a imbecilidade daqueles que nos julgam inúteis ou, no máximo, apenas úteis para os seus propósitos. Aceitar isto é dar mais valor à forma do que àquilo que a constrói. Aceitar isto é permitir que os mágicos sirvam não apenas para alegrar, com as suas mentiras, os nossos momentos de ócio, mas que mintam para nós a realidade que ainda não vemos, e que ainda vamos descobrir.

Aceitar isto é ser cego ou, no mínimo, vesgo, ou fingir que é rei de um olho só numa terra em que não se enxerga. Quem sabe esta escuridão que virá, este apagão, há de fazer com que todos nós venhamos a acender uma nova luz no nosso entendimento, e aí talvez, finalmente, certos seres obscuros venham a se perder na noite que eles mesmos criaram?


- Postado por: Santista às 09h39 AM
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A convergência das diferenças
  
 


As nossas diferenças constituem um tema universal inesgotável, ocasionando imensa perplexidade. Versões polêmicas coincidem com a história e os padrões normativos se confundem, porque somos diferentes. Você é você. Eu sou eu. O que eu gosto só é referência para mim, pode servir – ou não – para você. Essas diferenças nos mantêm vivos, alertas, intrigados, intrincados, mexendo com a nossa capacidade de tentar – o que é difícil – conhecer o outro, esse ser misterioso, às vezes tão próximo e ao mesmo tempo tão desconhecido.

Desconhecer o próximo nos traz a realização adormecida no berço do entendimento, como a busca da afetividade diferenciada. Graças a Deus somos diferentes. Isso é instigante e enseja que se façam conjecturas, devaneios, sonhos, promessas e que tais, quando, muitas vezes, as respostas são tão óbvias. Lágrimas podem ser apenas lágrimas. Ao secá-las, o espírito se restabelece, o corpo recebe adrenalina e endorfina, para torná-lo capaz de fazer a pulsação disparar com novas emoções que darão vida à nossa vida. Imaginemos que todos fossem iguais. Tudo seria previsível, sem graça, chato e modorrento. É bom que cada dia e cada pessoa nos propiciem descobertas, novas formas de partilhamento e desafios.

É ótimo que você me surpreenda e, certamente, será agradável que eu não seja o retrato da mesmice que entedia. O novo encanta e estimula.

A busca do novo e do desafio, própria do ser humano, quando levada para os relacionamentos pessoais, torna-os mais ricos.

As diferenças movimentam sentimentos, invadem a alma de emoções e fazem renascer esperanças. Os laços misteriosos das afeições deixam marcas profundas. As pessoas e os lugares registram acordes em nossos pensamentos. Os liames das diferenças estabelecidas às vezes surpreendem porque a importância dos valores que nos cercam melhor se caracterizam diante do desconhecido.

O novo impulsiona o homem a lutar incansavelmente e faz perdurar o curso das amáveis construções. A experiência popular guarda sabedoria ao lembrar de que as diferenças são boas. As pessoas constantemente estão a aprender com as advertências do efêmero. É grande a alegria de um artista quando vê na sua obra que não está superado pela falta de criatividade. Da mesma forma os projetistas quando vêem seus planos e projetos culminarem na própria realidade. É renovar de uma maneira carinhosa as diferenças e ver depois de muitos anos alguém com quem tenhamos nos envolvido e perceber que fomos e ainda somos amados.

Há uma força dentro de nós sempre à espera da convergência das diferenças, nos trazendo a sensação de que estamos realmente vivendo, realizando, aprendendo e servindo. A filosofia do aprender apaixona, notadamente quando se tem a independência de descobrir os segredos inspirados pela inteligência universal. Somos dos que acreditam, sinceramente, na influência divina para mudar as nossas vidas.

O mundo não respeita as diferenças. Exige delas: parcimônias, renúncias, penitências e ainda lhes cobra permanentes alegrias. A vida, no entanto, se mostra breve para todos. Os esforços dispendidos procuram estabelecer bem-estar e alcançar felicidade. Mas são os comovedores momentos fugidios que marcam as razões de viver.

Os novos horizontes sugerem aproximações, diferenças e distâncias. É preciso que cada um saiba escrever a sua história. Sedimentando-a com o vigor do novo e da inspiração dos sentimentos.

A liberdade total nunca nos é concedida. Ela é fruto da insubmissão, da inquietação, da conquista e da consciência de que o que se vive e como se vive não nos agrada, daí a porta aberta para um mundo desconhecido. Mas, é preciso deixar claro o preço que se paga ao tentar o novo, ao assumir as diferenças.


- Postado por: Santista às 09h23 AM
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