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A miséria humana comumente não desenvolve mais nas pessoas, como antigamente, sentimento de solidariedade. Ao invés disso, ela se transformou em moeda de troca, ou seja, lidar com a pobreza é muito mais importante para aquele que dá do que para aquele que recebe, e isto acontece não em decorrência da nobreza de atitude ou de caráter, mas em função das vantagens que possam ser auferidas pelo doador.
E o mais deprimente é constatar que esse tipo de postura deixou de ser exceção para virar regra. A caridade hoje tem o propósito de transformar os que a praticam em santos, e não o de auxiliar aqueles que necessitam de socorro. Tanto é assim que se faz questão de alardear o apoio que se dá a alguém.
Esse tipo de comportamento – duro, insensível e insensato – transpôs as fronteiras do indivíduo e passou a compor a cultura do nosso tempo. Não é raro vermos pessoas que emporcalham com os seus maus hábitos a comunidade onde vivem, e entretanto, mostram-se sorridentes e realizadas e são aplaudidas quando realizam uma ação qualquer, que se fosse analisada isoladamente demonstraria grandeza de espírito.
Faz parte dos hábitos de hoje, quando se oferta alguma coisa a alguém, aguardar o reconhecimento, e quando isso não ocorre, o “ingrato” é tratado com crueldade e desprezo. Isso vem significar na verdade que o apoio não foi ofertado em forma de doação, mas de empréstimo que quando for cobrado deve ser pago, com juros e outros acréscimos, sob pena da aplicação de alguns suplícios e outras crueldades.
Na verdade, o nosso tempo está povoado de agiotas e chantagistas, e não importa o que entregam, pois sempre vão cobrá-lo de volta, e o retorno se dará acompanhado da humilhação e da rendição incondicional daquele que foi mero depositário de algo que não era seu.
Isso significa que algumas pessoas imaginam, porque agem como se assim o fosse, que as coisas do mundo e da natureza são da exclusiva propriedade delas, enquanto os outros seres humanos são personagens de segunda grandeza e destinados a servi-las e agradá-las.
Parece-me então que estamos divididos em duas categorias: uma que se apropriou do mundo e indiferentemente das demais exerce o seu poder sobre ele, e a outra que deve obedientemente e sem contestação seguir aquela que proverá o seu espírito e sua despensa, permitindo-lhe a vida e, se houver merecimento, alguma alegria.
Eu tenho pensado bastante a respeito e não me julgo integrante de nenhuma dessas duas parcelas. Não me sinto identificado com a primeira porque eu a desprezo e a sua postura. Quanto à segunda, revolta-me a incapacidade que ela tem de reagir contra os seus opressores e a inconsciência que a mesma possui a respeito da sua própria foca e da fragilidade do seu algoz.
Apesar da angústia de que sou possuída a esse respeito, resta-me ainda a esperança de que a pobreza de espírito dominante seja superada pela humanidade que ainda há em alguns poucos, que não se transformaram em irracionais.
O fato é que olhando o mundo, como se estivesse a distância, que eu vejo são ferozes animais fingindo ser gente, bípedes vestidos de homem, aparentando possuir alma e sentimentos.
Andam como os humanos, sorriem como os humanos, encantam como os humanos, mas cuidado, são bichos!
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- Postado por: Santista às 08h58 AM
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A Exxon chegou ao Brasil como Esso; a Texas Company, Texaco; a Atlantic nunca teve, em nossa terra descoberta por Cabral, pronúncia próxima a “atlêntic”, e sim “atlantique”. Sabiam que a marca Nike, que os americanos pronunciam “naique”, tem em sua origem (grega) exatamente a pronúncia “nique” e é o nome de uma deusa que representa a vitória? Sabiam que a gente devia sempre pronunciar – e escrever – récorde, e não recorde? Sim, porque o nome do estado da Flórida (vejam que a gente põe acento) é a concepção da palavra espanhola “florida”, que, no idioma de Cervantes, quer dizer o mesmo que em português: florida.
Não vejo razão para buscarmos a fidelidade da grafia e da pronúncia no inglês dos Estados Unidos. O português do Brasil tem diferenças do português de Portugal e há países lusófonos que usam denominação diferenciada (em Cabo Verde, o nome da língua é crioulo). Abrasileiramos muitas palavras e expressões de outras línguas, além do inglês. Mas cometemos a suprema burrice de trocar palavras... Ora, tem gente que ainda escreve “estória” para significar ficção.
A nossa macaquice lingüística é triste! Engraçado é que algumas expressões francesas perderam para o português: chofer virou motorista (ainda bem que não é “driver”); em lugar de “étager” e “buffet” hoje dizemos aparador (bufê ficou para uma longa mesa de comida, mas pode ser a empresa que fornece refeições para festas e eventos especiais). Muitas palavras saíram do português para virar inglês comercial, como painel virou “outdoor” (o conceito original da palavra nada tem a ver com os grandes cartazes publicitários) e foto em ponto grande se tornou “pôster” e estandarte é palavra que só se usa, agora, em escolas de samba, pois a grande flâmula hoje é “banner”, caso (para os que promovem “workshop” – que já foi seminário) agora é “case”, intervalo para recreio agora é “coffe brake”.
E os vários festivais de todas as naturezas? “Brazilian fish festival”, em ver de Festival Nacional de Pesca; “Fashion”, em vez de desfile de moda; “Shopping center” nada mais é que um centro comercial. Não falta nada para rodeio virar “rodeo” – e um tal “Go Music Festival”, que imaginei algo como mandar música pra frente, é, ao pé da letra, Festival de Música em Goiás. Mas os locutores e as locutoras locais não dizem GO (com som aberto, lembrando a sigla de Goiás) nem gê-ó, mas “gôo”, que é para americano nenhum botar defeito. Ou escandalizar-se com o defeito. E o balanço (em música), que virou “swing” (hoje, nada mais que suingue”)? E no turismo, então: Vejam: “No show”, “resort”, “chek in”, check out”... Não tentem corrigir minha grafia, mantenho o dicionário de inglês tão longe quanto melhor me pareça.
Não bastasse isso, a moda agora, com os cacoetes legitimados pela péssima linguagem de notáveis acadêmicos doutores, é a volta do “a nível de”, do “eu, enquanto pessoa”, do “onde” em vez de “quando” e essa odienta mania de citar feminino e masculino, porque não entendem que, em bom português, o masculino não é definido, mas genérico.
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- Postado por: Santista às 01h11 PM
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Este ano deverá entrar para a história como o da afirmação econômica do Brasil. Tanto no sentido de consolidação pelo governo Lula de uma política econômica iniciada na era FHC quanto no de provar para o mundo que o caminho trilhado é virtuoso. Vários indicadores positivos não deixam dúvidas: a economia foi melhor em 2004. O nível de emprego, a confiança do investidor e o Produto Interno Bruto (PIB) cresceram, puxando junto a popularidade do governo Lula. O otimismo, no entanto, é contido e não esconde a necessidade de atentar para questões cruciais. A alta dos juros, a elevação da carga tributária e a pressão inflacionária continuam sendo gargalos para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Crises internacionais também podem frustrar os resultados da economia em 2005.
O PIB, soma de todas as riquezas produzidas no País, deve fechar 2004 em 5,2%, conforme projeção do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Um número bem acima das expectativas iniciais. Só no terceiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2003, o crescimento foi de 6,1%, o melhor em oito anos. A relação dívida/PIB caiu pela primeira vez em 10 anos, chegando à faixa de 54%, ante 58,7% no fim de 2003. O superávit primário feito pelo governo chega a 5,5% do PIB.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho sinalizou recuperação. Segundo dados da União, foram criados 1,79 milhão de empregos formais de janeiro a outubro. É o resultado mais expressivo desde 1992. O maior nível de ocupação é resultado do fortalecimento das exportações e, em menor proporção, do mercado interno. A produção industrial cresceu 8,3% nos dez primeiros meses do ano e as vendas do comércio foram ampliadas em 9,27%. Até o dia 12 de dezembro, as exportações chegaram ao volume histórico de US$ 90,533 bilhões, sendo o principal motor da economia em 2004. Já o agronegócio, vedete da economia em 2003, este ano não teve o mesmo desempenho e a safra ficou 3,47% inferior à do ano passado. Ainda assim, a última Pesquisa Mensal de Emprego (PME) mostra que a taxa de desocupação foi de 10,6% em novembro, a menor desde outubro de 2001.
Por outro lado, o fato é que, em 2004, o País não solucionou problemas cruciais para a sustentabilidade da economia, em médio e longo prazos. O maior deles é a taxa básica de juros (Selic), que está em 17,75% ao ano, inibindo investimentos e dificultando o acesso ao crédito. Paralelamente, a pressão inflacionária continua sendo provocada pelo aumento dos custos, principalmente com serviços públicos (telefonia, água e energia), reajustados sempre acima da inflação oficial. A alta inflacionária deve continuar impedindo o Banco Central de promover novos cortes na Selic, pelo menos nos primeiros meses do próximo ano.
Além disso, hoje a carga tributária gravita próximo a 37% do PIB, um avanço de 11 pontos percentuais em relação a 1993. Este ano, o governo federal acenou com alguma desoneração dos impostos, corrigindo em 10% as faixas salariais do Imposto de Renda (IR) e editando medidas para mudar a sistemática de tributação das aplicações financeiras e da previdência complementar. Mas ainda é muito pouco para desafogar cidadãos e empresários que convivem com mais de 60 impostos e tributos espalhados pelo País.
De toda maneira, as expectativas para 2005 são boas, caso sejam mantidos o atual cenário mundial e a confiança dos investidores internacionais. No dia 20 de dezembro, por exemplo, o índice do risco-país ficou em 388 pontos, o menor desde 23 de outubro de 1997, quando estava em 374 pontos. Especialistas e institutos estimam que a economia aumente 4% em 2005.
Na conjuntura internacional, o aumento das taxas de juros dos Estados Unidos, as elevações de preço do petróleo e o provável desaquecimento da economia chinesa (e global) são os principais entraves à continuidade do crescimento do Brasil. No mercado interno, a aposta da União e dos Estados para retomar os investimentos está nas Parcerias Público-Privadas (PPPs), já aprovadas pelo Congresso Nacional.
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- Postado por: Santista às 01h52 PM
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| Quem não quer a reforma política
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O argumento mais usado pelos inimigos da reforma política é o de que a proposta de adotar listas fechadas poderia beneficiar lideranças partidárias. Como relator da comissão especial que estuda o tema, sinto-me à vontade para analisar a questão, já que, no sistema político-eleitoral em vigor, sempre me elegi entre os mais votados em disputas proporcionais. Portanto, não estou legislando em causa própria. Desde que foi instalada – em fevereiro deste ano – a Comissão de Reforma Política realizou vários seminários no Congresso Nacional e debates na OAB e em Assembléias Legislativas. As discussões sempre contaram com alguns dos mais renomados cientistas políticos do Brasil e do exterior, homens e mulheres altamente preparados para discutir o tema e apresentar sugestões. A maioria chegou à conclusão de que o financiamento público de campanhas só será possível com listas fechadas nas eleições proporcionais, em que o voto passa a ser no partido e não mais no candidato. Como há 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Justiça teria que “fechar as contas” com apenas 30 presidentes de partido. No atual sistema cada candidato apresenta individualmente seus gastos, tornando quase impossível à Justiça, devido à falta de recursos, averiguar a lisura da campanha. O financiamento público com listas fechadas eliminará o abuso do poder econômico, tão freqüente nas disputas atuais. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo, somente na eleição de 2002 foram registradas mais de 7 mil denúncias de gastos abusivos. E quem paga a conta? O contribuinte, já tão vitimado pela enorme carga tributária, pelo desemprego, pela violência, pela esperança que se transformou em medo. Ou o leitor acha que financiador de campanhas não cobra a fatura após eleger seus escolhidos? Os políticos que criticam as listas fechadas o fazem por desconhecimento ou má-fé. Afinal, as regras atuais são mais que propícias à compra de votos e abrem caminho para que entrem na política representantes do crime organizado. Segundo o Departamento de Narcotráfico da Polícia Federal, traficantes já armam estratégia semelhante às usadas na Itália e Colômbia. A idéia dos bandidos, segundo a PF, não é mais bancar a campanha de terceiros, mas eleger os próprios integrantes do crime. O que propõe a mais importante das reformas, a reforma política, é, sobretudo, a moralização na vida pública e a garantia de que os homens de bem continuarão a ter espaço para discutir os grandes temas nacionais e levar o Brasil ao tão sonhado desenvolvimento social, econômico e político. É lamentável que o PT tenha pregado tanto a reforma política e que agora, ocupando a Presidência da República e da Câmara Federal, o partido relegue a segundo plano a principal reforma. Um dos sinais mais claros da incoerência do PT foi o pedido feito a seu Instituto Cidadania em 2002 para realizar amplo estudo sobre o tema. O estudo virou livro e foi lançado há um mês no Salão Negro do Congresso Nacional, com a presença do ex-integrante do Instituto Luiz Inácio Lula da Silva. Talvez numa rara autocrítica que o fez perceber sua lamentável contradição, o agora presidente da República preferiu o silêncio no ato do lançamento da obra, frustrando a multidão de jornalistas, políticos e cientistas políticos presentes. Agora sabe-se por que Lula ficou calado. Seu governo excluiu a reforma política da pauta da convocação extraordinária de julho por ter feito do tema moeda de troca na tentativa de aprovar as malfadadas reformas da Previdência e tributária. O momento para a reforma política é agora. Ou o Congresso Nacional aprova urgentemente as mudanças que garantirão a ascensão moral em todas as esferas do poder ou em breve o País poderá mergulhar numa incorrigível crise institucional, com conseqüências imprevisíveis. Quem não deve, não teme a reforma política; quem deve, pode espernear, porque a pressão da sociedade vai forçar as mudanças no Congresso e, depois, nas urnas. |
- Postado por: Santista às 01h47 PM
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