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A lágrima e o sorriso – depressão e mania
  
 


O circo pega fogo. Tudo arde. Pessoas correm. Desespero e agonia. Fica no picadeiro somente uma figura de cara pintada, que jurava que iria salvar o mundo, até impeachment fez acontecer. Ele vestido espalhafatoso, com estrelas vermelhas ao peito, que sonhava com uma sociedade justa, que ao menos garantisse risada a todos. Palhaço! E o fogo crepita... E a maquiagem borra com fumaça e suas lágrimas. Tudo virando cinza. Trapalhadas que viraram ofício, e a torta na cara no final. Delírio de todos eles, bom e adorado, qual ministro poderoso, mas agora a queda. Ficou a lágrima, o nó na garganta, a agonia, o vazio e a perda da esperança. O sonho se foi, com ele nossos planos. Existe um tipo de depressão recorrente na sociedade advinda de uma mania excessiva muito presente nas pessoas hoje em dia. “Todo mundo tá feliz?”

Tá feliz! Todo mundo quer dançar? Quer dançar! É como se esta dinâmica virasse um mantra em nossa era. Xô tristeza, xô baixo-astral.

Como palhaços, devemos estar alegres e felizes o tempo todo, fazendo tipo independentemente de nosso estado afetivo. É fácil observarmos isto, basta dar uma volta sexta à noite pelos bares ou ligar a TV. Há um decreto implícito: “Finja que é feliz.” Mesmo que seu circo esteja em labaredas, sorria e faça pose, não é com você. Olha a câmara! Vivemos fazendo tipo, caras e bocas e isto é nossa cultura vigente que apregoa a ilusão como sinônimo de êxito.

Este é um trágico retrato da perda de ideologia, do sentido de vida, do sagrado apontado por Jung como o início de nosso processo de individuação, ou seja, auto-realização. Um caminho para pessoas que buscam mais do que apenas um sorriso de vitrine. A felicidade real não passa por uma ostentação de máscara social. Encontrar-se é uma questão de respeitarmos nossos sentimentos genuinamente, algo que poucos na sociedade apreenderam.

A epidemia de casos de transtornos de humor em especial de depressão em nossa sociedade moderna tem início em algo bem mais profundo que a simples bioquímica cerebral. Esta doença emerge com força avassaladora devido a um distanciamento do homem moderno de sua natureza afetiva, de sua essência. De tanto fingir e interpretar o ser humano, esqueceu-se de quem é, e seus comprimidos mágicos não o ajudam a se reencontrar. E o fogo no picadeiro só aumenta. A apatia é tanta que já não há mais energia nem mesmo para correr.

O problema não é a doença, mas as pessoas que persistem em permanecer doentes, longe de sua própria vida. A cura emerge da postura do paciente de se encarar de cara limpa. E que aprendamos a respeitar tanto a lágrima quanto o sorriso.



- Postado por: Santista às 10h34 AM
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Uma semana para esquecer
  
 


O governo Lula viveu uma semana de cão. Na quarta-feira, 22, Dia Internacional dos Ex-Combatentes, o anjo da guarda do presidente devia estar de folga. Há quem diga que raio não cai no mesmo lugar, mas naquele dia caíram dez de uma só vez – cinco na estrela do PT, três na cabeça do ex-ministro José Dirceu e dois no Palácio do Planalto. Sobraram faíscas até para Lula, que todo mundo sabe que não é nenhum Fernando Collor.

O primeira descarga elétrica queimou o brilho desejado por José Dirceu em sua posse no Congresso. Ao invés da discrição, ele quis mostrar que não estava voltando à planície como um deputado qualquer e deu no que deu: aplausos do bem, sopapos do mal e pancadaria generalizada. Um vexame só.

A segunda manifestação de radiação, observou-se no depoimento de Roberto Jefferson à Comissão de Sindicância. Era para ser secreto, mas todo mundo ficou sabendo que o presidente do PTB jogou apenas 20% de gravetos na fogueira e reservou mais 60% de lenha de peroba rosa, que pega fogo só de olhar.

Ampliando o raio de ação, a secretária Fernanda Karina reapareceu em grande estilo no Big Brother da Rede Globo, de grande audiência. Ela deu credibiliadde às denúncias de Jeffesron e jogou os holofotes na careca do publicitário Marcos Valério, que de mineiro só tem a certidão de nascimento. E haja respingos em José Dirceu, Delúbio Soares e Sílvio Pereira. Como golpe de misericórdia, denunciou ameaças de mortes e pediu proteção à Polícia Federal.

O raio de maior brilho foi acionado pela deputada Raquel Teixeira confirmando o mensalão – R$ 30 mil por mês, podendo ser ampliado para R$ 50 mil em caso de bom desempenho, e mais um bônus de R$ 1 milhão de Papai Noel. Uma coisa nunca imaginada nem em Ilha da Fantasia, mas como a secretária de Ciência e Tecnologia está no exercício pleno de suas faculdades mentais, o que se conclui é que ela não iria inventar uma coisa daquela.

Coube ao deputado Sandro Mabel disparar o raio anódico, carregado de partículas positivas para o governo Lula. Acusado de agenciador, ele mandou Raquel Teixeira e o mensalão para os raios que os partam. Ficou a palavra de um contra o outro, mas nada que uma acareação não resolva – desde que se use raios catódicos, de radiação acelerada.

O mais forte dos raios ficou por conta de Maurício Marinho, carta-bomba dos Correios, que foi flagrado no detector de mentiras espontâneo de seus advogados. Aí, abriu seu coração, denunciou cartas marcadas nas licitações e também pediu proteção à Polícia federal. E a Deus.

Com a bateria da CPI dos Correios recarregada, porém limitada a investigações que podem não ir além do trabalho já realizado pela Polícia Federal, a oposição se sentiu energizada para tirar do papel a CPI do Mensalão. Se uma CPI faz muito estrago, duas fazem muito mais.

No mesmo dia, em um raio de curvatura, a Justiça de São Paulo chamuscou a ex-prefeita Marta Suplicy com a inelegebilidade por três anos. Logo ela, que se julga a grande estrela do PT para disputar a sucessão de Geraldo Alckmin. Se conseguir, é claro, ultrapassar os primeiros da fila – Antônio Palocci, Aloísio Mercadante, José Genoíno e até o chamuscado José Dirceu.

No final da tarde, ainda com sol de brigadeiro, uma nova bomba: por nove raios contra um, o STF mandou instalar a CPI dos Bingos, aquela que revelou Carlinhos Cachoeira como um bom candidato a chefe do SNI (ou da Abin) e nivelou José Dirceu com Waldomiro Diniz.

Quando se pensou que o céu estava iluminado apenas pela lua cheia, eis que surge o raio X da TPJ – Tensão Pós-Jefferson: uma equipe da Rede Globo foi agredida por grandalhões na porta da sede do PT, em São Paulo. Justo a Globo, que tinha sido acusada de governista por Roberto Jefferson.

Para o presidente Lula, que sofre tanto com os apagões da seleção vagalume brasileira, sobrou uma noite tranqüila pela vitória contra o Japão e pela aprovação da Reforma Política, um sonho adormecido há 12 anos na CCJ da Câmara dos Deputados.

No meio da população, que está vendo e ouvindo tudo caladinha, a sensação não é boa para os políticos. A impressão que se tem é que os parlamentares estão interpretando ao pé da letra – ou seria do raio? – os dez curiosos mandamentos de Nicolau Maquiavel, notável escritor italiano falecido em 1527, autor de O Príncipe:

1 - Zelai apenas pelos vossos interesses.
2 - Não honreis a mais ninguém além de vós.
3 - Fazei o mal, mas fingi fazer o bem.
4 - Cobiçai e procurai fazer tudo o que puderes.
5 - Sede miseráveis.
6 - Sede brutais.
7 - Lograi o próximo toda vez que puderes.
8 - Matai os vossos inimigos e, se for necessário, os amigos.
9 - Usai a força em vez da bondade ao tratardes com o próximo.
10 - Pensai exclusivamente na guerra.


- Postado por: Santista às 10h30 AM
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A Amazônia sem floresta
  
 


Três diários britânicos – The Independent, The Guardian e Financial Times – criticaram o governo brasileiro pelo aumento da destruição da floresta amazônica, divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente. O primeiro deles publicou uma capa intitulada “O estupro da floresta... e o homem por trás disso”, acusando alguns políticos que participam do boom da produção de soja, que alimenta um mercado mundial aparentemente insaciável por grãos para ração para gado, “que é o principal motor da destruição da floresta”. O jornal londrino estampou dados segundo os quais a destruição da floresta amazônica, no ano passado, foi a segunda maior já registrada nos últimos anos.

Outros órgãos da imprensa internacional estão acolhendo farto noticiário relativo ao aumento da devastação, anunciado pelo governo brasileiro. Todos são unânimes em declarar que foi a pior devastação desde 1995, quando uma área equivalente à da Bélgica desapareceu do mapa. Principalmente a imprensa inglesa registra que os números mostram que “embora o presidente Lula possa falar a linguagem do crescimento sustentável, até agora ele fez pouco para conter as atividades madeireiras, dos produtores de soja e pecuaristas responsáveis pela aguda erosão da maior reserva natural e vegetal do Brasil”.

De agosto de 2003 a agosto de 2004 uma área de 23 mil a 24 mil km² da Amazônia foi devastada. O secretário da Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobiano, reconhece que o governo não conseguiu reduzir a “inaceitável” taxa de desmatamento da Amazônia e evita polemizar em relação a alvos constantes de ONGs ambientais, como os produtores de soja, os madeireiros e a equipe econômica”. “Seria uma insanidade o Brasil abrir mão do agronegócio, que significa a modernização da produção agrícola”, avaliou. Ele ponderou, no entanto, que as florestas não podem sofrer mais cortes para garantir a expansão da floresta agrícola.

Para Capobiano, segundo relata o jornalista Leonêncio Nossa no O Estado de S. Paulo, o problema da devastação da Amazônia só pode ser resolvido a médio prazo, mas o governo espera redução “já” da área desmatada, isto é, neste ano e em 2006. A meta da ministra Marina Silva é mudar os “vetores” históricos e estruturais que causam o desmatamento. Assim, pretende mudar a cultura de que, para garantir renda, emprego e desenvolvimento, a floresta deve ser devastada. “Se reduzir o desmatamento em sua gestão e quando esse índice disparar, ela e sua equipe terão fracassado”, argumentou o secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente.

O Financial Times afirma que a destruição da Amazônia foi motivada pela recuperação econômica e pela expansão das exportações. Segundo o diário financeiro, críticos do governo dizem que “uma carência de recursos, corrupção, burocracia e oposição política limitam a implantação das políticas que visam a preservação da floresta”. Na Espanha, a notícia do aumento da devastação também ganhou espaço em um dos principais jornais, pois o El País salientou, em manchete, que a Amazônia brasileira perdeu, em um ano apenas, uma área verde equivalente à Galiza. O G8 e a União Européia examinaram o assunto com especial atenção, muito embora não tenham emitido qualquer declaração final.

O que não se duvida é que os países ricos estão cada vez mais interessados na internacionalização da Amazônia. Querem transformá-la em patrimônio do Primeiro Mundo, afrontando a soberania do Estado brasileiro e atirando às favas os interesses nacionais. O governo tem de estar atento a tudo quanto diz respeito não apenas à devastação da floresta amazônica, mas também à cobiça dos que desejam transformar a região em território europeu ou americano. O Brasil é nosso. Temos de defendê-lo custe o que custar.



- Postado por: Santista às 10h26 AM
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Novamente, o “Mar de Lamas”, 
  
 


No mês de agosto de 1954, a campanha do jornalista Carlos Lacerda, pelo jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, chegava a seu ponto culminante, mormente após o crime da Rua Toneleros, perpetrando, segundo consta, a mando do tenente Gregório Fortunato, chefe da Guarda Pessoal do presidente Getúlio Vargas. Deposto no final de 1945, o presidente Vargas voltara, em 1951, nos braços do povo, eleito pelo PTB , partido que criara, durante seu exílio voluntário, em São Borja (RS), como um “partido de massas”, para seu retorno triunfal ao Palácio do Catete.

O velho caudilho governara, ininterruptamente, de 1930 a 1945, quase sempre discricionariamente. E não se adaptara, a partir de 1951, ao regime democrático instituído pela Constituição de 18 de setembro de 1946, que vigeria até 24 de janeiro de 1967, quando o regime militar de 1964 se institucionalizaria com uma Carta Magna, endurecida ainda mais com a chamada Emenda Constitucional Nº 1, de 1969.

Os desmazelos do governo Vargas eram, amiúde, desvendados por Carlos Lacerda, trazendo a Getúlio Vargas enorme desgaste. Mas, com sua legendária esperteza, Vargas pensava poder superá-lo. Até porque, no ano seguinte – o mandato presidencial à época era de 5 anos –, 1955, haveria eleição para escolha do sucessor.

Todavia, a interferência do submundo palaciano, sob a égide de Gregório, turvaria, irremediavelmente, as águas da política brasileira. Gregório tramara assassinar Carlos Lacerda, calando, de vez, o seu denuncismo. Mas, em vez de atingir Lacerda, a bala assassina atingiu o major Vaz, oficial da Aeronáutica, o que levaria à criação da chamada “República do Galeão”, onde o inquérito instaurado pela Aeronáutica, com o apoio ostensivo do brigadeiro Eduardo Gomes – candidato udenista derrotado, em 1950, por Getúlio Vargas, no pleito presidencial –, terminava por pleitear, com ares de exigência, a renúncia ou a destituição dos presidentes da República.

Dentre os desmazelos denunciados, o envolvimento de parentes próximos do presidente da República, criando na opinião pública insuportável mal-estar.

Ao tomar conhecimento da corrupção que, em nome do governo, subia dos porões do Palácio do Catete e inundava o gabinete presidencial, Getúlio Vargas exclamou, num momento de desolação:

– Estou num mar de lama!

Dali por diante, os acontecimentos se atropelaram, como o estouro da boiada, incontroláveis. E o desfecho, trágico desfecho, todos sabem: uma bala no peito, disparada pelo próprio presidente.

Mais tarde, com a reconstitucionalização, tivemos o episódio Fernando Collor que, embora absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, foi punido, exemplarmente, com a renúncia, para escapar ao inexorável impeachment, em 1992. Seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias – o famigerado PC Farias –, denunciado por Renan Calheiros e por Pedro Collor, agia em nome do presidente e, vendendo influências, maculou a honra presidencial e o tirou do Palácio do Planalto.

Curioso é que, 13 anos após – o partido que tem o número 13, o PT, e que foi o algoz do presidente das Alagoas –, senta-se, agora, no banco dos réus, na CPI dos Correios, que vem evidenciando estar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva num novo “mar de lama”.


- Postado por: Santista às 10h22 AM
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Meu amigo, a culpa é só sua...
  
 


Todo mundo se mostra muito indignado com o mar de lama que devasta Brasília como um tsunami. Brados em prol da ética são ouvidos, retumbantes não só do Ipiranga, mas até mesmo das margens fétidas do Capim Puba. Ou das margens pavimentadas do Botafogo, com os rachas de playboys milionários em carros importados (até mesmo eles...). Todos agora têm a decência tatuada nas palavras que deferem. O problema é que essa tatuagem é tão verdadeira quanto aquelas de chiclete: na primeira oportunidade, desbotam e escorrem pelos ralos dos chuveiros.

Eu não estou nem um pouco indignado com a troca de ofensas públicas de parlamentares. Não me surpreendem as denúncias de venda de sentenças por parte do Judiciário. Muito menos os favorecimentos em licitações por parte do Executivo. Para mim, tudo isso é de uma normalidade banal. Trivial. Arroz com feijão. Tal qual dar partida em um carro ou colocar um disco dos Beatles para tocar. Simples.

Não é surpresa nenhuma a corrupção nas mais altas instâncias sociais quando ela rola solta no cotidiano da população. Executivo, Legislativo e Judiciário são meros reflexos das práticas usuais do povo de um determinado país. É completamente incompatível exigir lisura nas práticas dos poderosos quando os sustentáculos desse processo são tão corroídos quanto madeira velha cheia de cupim.

Quando o cara molha a mão de um guarda de trânsito com uma nota de 50 reais, ele legitima a propina de um milhão de reais para parlamentares trocarem de partido no Congresso. Não é porque as quantias são desproporcionais, em escala diferente, que uma é mais certa que a outra. As duas são erradas do mesmo jeito.

Quando um empresário sonega impostos, não dá notas cheias aos fornecedores e mantém o famigerado caixa dois, ele dá total apoio às licitações picaretas e fraudulentas que vemos com uma freqüência abjeta por aí. Ele se coloca no mesmo nível sórdido, e qualquer argumento que tente justificar a prática é facilmente derrubado.

Quando alguém vai a um político e pede para que ele pague uma conta de luz, pede apoio para uma formatura de escola ou pede emprego para um parente, ele se porta como um fomentador da corrupção. De onde será que o político vai tirar o benefício egoísta que o pedinte quer? Do próprio bolso é que não é! Logo, será mais uma sangria do cofre público. O pidão só quer sua reivindicação atendida e pronto. E essa reivindicação é tão vil quanto a prática costumeira do nepotismo.

Quando um estudante de Direito pede um estágio no Fórum a um tio que tem um cunhado que tem um amigo que tem uma prima que é juíza, ele é tão malandro e dá apoio branco aos magistrados que vendem sentenças. Ou que empregam o filho despreparado no próprio gabinete com o único critério do laço sangüíneo.

Então, antes de sair xingando os “políticos ladrões” do Brasil, dê uma olhada para o seu próprio dia-a-dia. Você verá que ele é tão sujo quanto o de quem critica e você só não é mais um político ladrão por falta de oportunidade. Ou inteligência mesmo.



- Postado por: Santista às 09h55 AM
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Chamem Chico Xavier
  
 


A busca da verdade e do autoconhecimento foram os pilares que sustentaram a filosofia da Grécia Antiga. “Conheça a ti mesmo”, ensinava Sócrates. Outro filósofo, um certo nazareno nascido em Belém, completaria a assertiva socrática: “Não julgues para não serdes também julgado”.

Está em marcha no Brasil um processo de linchamento moral do governo Lula e de seus auxiliares no governo, e no PT. As armas são acusações sem provas, denuncismo e histeria moralista que beiram a um lacerdismo tardio ou macarthismo revisitado.

Os principais alvos dos detratores são o ministro demissionário José Dirceu (PT-SP) e o secretário de Finanças do PT, Delúbio Soares. Ao primeiro coube alcunha semelhente a Rasputin, bruxo do último Czar da Rússia, Nicolau II, ao segundo, tentam impingir a imagem de que seja o novo PC Farias.

François Marie Arouet, Voltaire (1694-1778), filósofo do Iluminismo, ensinou que democracia se faz também com tolerância; “Detesto o que escreves, mas daria minha vida para que possa seguir escrevendo”. Todos governos são passíveis de críticas, investigações, fiscalização e análise por parte da oposição, imprensa e de seus próprios pares. Faz parte do jogo democrático a oposição e movimentos sociais pressionarem, e o governo reagir. O que se vê no país não é a aplicação desta regra, mas uma tentativa de linchamento moral do governo Lula e, principalmente, de seus principais atores: José Dirceu e Delúbio Soares.

A crítica, para ser honesta, tem que estar embasada na verdade. O que se tem são impropérios ditos por uma boca mentirosa, por alguém que foi pego com a mão na cumbuca, à frente de um amplo esquema de corrupção em diretorias ligadas aos Correios. Roberto Jefferson não é e nunca foi uma testemunha confiável. Seu ódio por Zé Dirceu que o colocou no banco dos réus na CPI dos Anões do Orçamento. Esta mesma CPI levaria ao impeachment do presidente Collor de Melo, do qual Jefferson era membro da “tropa de choque”.

No mais, o que se tem são acusações sem provas, sofismas, figuras de retórica de um advogado experiente, forjado “em mais de 200 tribunais de júri”, como gosta de dizer, para se autopropagandear.

Em artigo escrito no jornal Hora Extra, o jornalista Helvécio Cardoso desnuda a “denúncia” do mensalão feita por Jefferson:

“Baseado em que o deputado Roberrto Jefferson acusa Delúbio? Segundo ele mesmo disse à Folha de S. Paulo, a informação lhe fora passada pelo deputado Martinez, à época presidente do PTB. Somente Martinez poderá confirmar se disse isso a Jefferson. Ocorre que o dito Martinez está morto há uns dois anos.

Mas ainda que fosse possível colher o depoimento dos restos mortais de Martinez, seria necessário indagar a ele como soube que Delúbio instituíra o mensalão, se por ouvir falar ou se de sabença própria. Se de sabença própria, seria então necessário acareá-lo com Delúbio.

É por isto que a “denúncia” de Jefferson não poderia ser levada a sério, nem deveria ser objeto de investigação. Ela se baseia no que lhe disse um morto. Não apareceu mais ninguém que teve com Martinez o mesmo tipo de conversação. Como se pode acreditar na veracidade do que disse Roberto Jefferson. Se ao menos ele fosse um homem de moral ilibada, ainda vá lá. Ocorre, porém, que ele é suspeito de alas maracutaias...”

As contradições não param por aí. Líder da bancada do PTB na Câmara Federal, o deputado José Múcio Monteiro disse, ao ser interpelado pelo deputado Valdermar Costa Neto (PL), na Corregedoria da Câmara, que “nunca houve reunião da bancada do PTB com seu presidente para tratar do mensalão”. Ainda no seu depoimento à Corregedoria, Jefferson, na maior desfaçatez, repetiu o bordão dos tempos em que fez parte do Centrão (de triste memória na Constituinte). Disse, textualmente, que “é dando que se recebe”, ou seja, que as indicações feitas pelo PTB em órgãos estatais tinham como contrapartida que os indicados operassem fundos para o partido.

O deputado Roberto Jefferson repetiu a confissão de corrupção ativa na entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira, ao dizer que o PTB indicou dirigentes de estatais tendo como objetivo que “estas pessoas estabeleçam vínculos com empresários que trabalham para o governo e consigam recursos para financiar os partidos”. A missão de cada indicado do PTB, segundo Jefferson, é que conseguissem de cada empresário “pelo menos R$ 60 mil mensais”. Disse mais ainda, que em 1994, na campanha presidencial de Fernando Henrique Cardoso, o senador pelo PTB Andrade Vieira, então presidente do Banco Bamerindus, fez contribuições não declaradas à campanha do PSDB.

Ao contrário de PC Farias, o professor Delúbio Soares não tem patrimônio. Não tem casa própria, não possui um Learjet, não é sócio em fazendas, jornais, emissoras de rádio e TV. Tem salário fixo e mora há 14 anos num modesto apartamento no centro de São Paulo.

A acusação de “enriquecimento ilícito” imputada pelo Ministério Público também é absurda. É preciso ser um gênio das finanças para ficar rico recebendo salário de professor da rede estadual (R$ 1.020,00 brutos). Mas as acusações têm razões que o grande público não vê. E talvez pelo temor de que fosse vista, um dos promotores, que foi assessor do senador Demóstenes Torres, retirou o nome da portaria, deixando apenas a cargo do promotor Fernando Krebs seguir com o processo, que, segundo ele, a bem da moralidade, impessoalidade e do zelo pelo patrimônio público, deve ouvir também a atual secretária da Educação, Eliana França, e sua antecessora, Raquel Teixeira.

O presidente-operário Lula paga o preço de ser mais competente que o Príncipe dos Sociólogos. Com apenas dois anos e meio de governo tirou o país do atoleiro dos juros a 26%, do desemprego de 12%, déficit na balança comercial na casa dos US$ 15 bilhões e dólar cotado a R$ 4,00. O país bate recorde de vendas no exterior com US$ 120 bilhões em exportações, os juros caminham para queda gradual (agora na casa dos 19,75%) e o dólar (que não foi artificialmente congelado como nos tempos do real) está na faixa dos R$ 2,50.

Delúbio é discriminado por ser filho de camponeses, ser goiano de Buriti Alegre e de ter elevado o PT a uma potência eleitoral com um caixa de R$ 64 milhões/ano, 400 prefeitos, 91 deputados federais e diretórios informatizados nos 5.600 municípios brasileiros.

A verdade sempre prevalesce no final. O governo deve esclarecer os fatos, encontrar e punir culpados e ter coragem para continuar no combate à corrupção. As operações da Polícia Federal, a serviço do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, já levaram 1.200 criminosos do colarinho branco para o xilindró. Há lugar na cela para mais alguns. Talvez Jefferson encontre lá platéia para continuar contando suas estórias.



- Postado por: Santista às 09h49 AM
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É hora de fuzilar juízes
  
 


Considerado como um dimocrata (uma arrazoada mistura de ditador com democrata), Getúlio Vargas certa vez declarou o seguinte: “Eu não sou um oportunista. Sou um homem de oportunidades. Se um cavalo passar encilhado em minha frente, eu monto.”

Ao que tudo indica, o distinto senador Demóstenes Torres reza na cartilha dos que não rejeitam cavalgar uma mula com arreio paramentado. Nem que para isso seja necessário jogar a realidade e o bom senso no retrete.

O chistoso representante da câmara alta percebeu que o Judiciário representa um alvo fácil, elegeu os juízes como indefesos bois de piranha, e se apresenta aos veículos de comunicação de massas com uma tese que seria justa se não fosse enganosa.

Arauto de uma moralização que teoricamente obrigaria os magistrados a serem mais produtivos e eficientes, Demóstenes procura agilizar uma lei que, entre outras preciosidades, forçaria os profissionais investidos de múnus público a atuarem num regime de oito horas de trabalho diário, suprimindo as férias coletivas e reduzindo os períodos de descanso historicamente praticados no segmento.

Quanto ao primeiro item, a não ser que o fidalgo Torres não tenha exercido o cargo de promotor com a diligência que a função demanda, o regime de seis horas se presta a manter a qualidade do serviço executado e não ao contrário. Qualquer mente esclarecida sabe que o trabalho intelectual minucioso é impossível de ser realizado com mais de seis horas de labor.

Tanto que essa jornada se presta a atender jornalistas, taquígrafos e outras áreas afins. O juiz nem se fala. Seria desumano intimar um magistrado a se curvar oito horas a fio examinando complexas pastas processuais. Não seria justo ou producente.

Quanto o tal impedimento de férias coletivas, é algo bonito num alazão encilhado, mas na prática se torna algo tão intratável quanto arrear um puro sangue selvagem. A proposta esbarra em dificuldades orçamentárias e de caráter social.

Manter o engenho do aparato judicial moendo de forma ininterrupta requer verbas extras de grande monta. Isso fora a impossibilidade prática de alinhar, no mesmo trilho de interesses, férias aos que possuem filhos na escola e pares que atuam juntos trabalhando no mesmo sistema. Casais que atuam na área comum somam aos milhares.

Talvez o único tópico realista seja a proposta capaz de reduzir o descanso remunerado. Mesmo assim merece cuidados extras, pois esbarra no tremendo estresse de quem amarga o ofício de julgar.

Versar, em tom depreciativo, que juízes estão ministrando aulas respinga covardia. Lutar por melhores condições de vida engolindo pó de giz é algo produtivo e nobre. Merece elogios e não críticas.

O senador Demóstenes Torres conhece e sabe fazer juízo das realidades neste segmento. Mas joga para a platéia agindo por conveniência. O discurso é fácil e agrada os leigos que clamam por uma Justiça mais ágil. O assunto rende votos e entrevistas calorosas.

Os juízes já estão no paredão. Nada mais cômodo do que fuzilá-los. De quebra ainda se esconde o fato de que o Poder Legislativo é o único que tem cacife para modificar o País. Sua autoridade é tamanha que ele tem a superior condição de aumentar o próprio salário. E, se der na telha, tirar prerrogativas de terceiros.



- Postado por: Santista às 11h51 AM
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Roberto Jefferson e a filosofia do direito
  
 


Ocomportamento delator do deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) desperta paixões, manchetes bombásticas, inferências psiquiátricas e elocubrações filosóficas. Por isso chamam o homem de showman, artista, grande intérprete da comédia nacional. O mentor da crise política fere normas de conduta de duas maneiras: transpõe a linha amarela da legislação que regula a improbidade administrativa, pois Jefferson confessa que empresas estatais podem ser usadas para desviar dinheiro aos partidos políticos. E extrapola os valores de grupo, ao dedar corruptores do sistema.

Homem com faculdades mentais aparentemente no lugar, professor de processo penal e político desde tempos da ditadura, o deputado federal é paradigma de comportamento ético. O moralismo jurídico de Viktor Cathrein serve para desnudar a personalidade do maníaco que atira em todos. Catherin revela que tantos os valores de eticidade quanto parcela significativa das leis devem ser universais. Para ele, a totalidade das leis éticas naturais referentes à vida social humana prescreve que seja dado a cada um o que é seu. E sinaliza: não se deve fazer mal a ninguém.

Na entrevista de segunda-feira, para o programa Roda Vida, da TV Cultura, Jefferson disse que o ‘mundo é assim’: existe alternância de poder e alternância de novas empresas que – representantes da iniciativa privada – se encrustam no Estado para ganhar licitações, encomendas e delegações de poder. De repente, na visão lógica do parlamentar, o Estado passa a ser sempre patrono de vampiros do dinheiro público, que objetivam facilidades e o corolário midiático de que sejam ‘nobres empreendedores de empregos’.

Assim pensa Jefferson: o Direito, as coisas do Estado e sua própria prática política apresentam moral própria. É o que Nicolai Hartman – e Norberto Bobbio – chama de nova tendência tirânica dos valores, que se configuram no sentido de modelar tudo à imagem do corruptor. Miguel Reale critica a prática deste pensamento: “Realizar o Direito é realizar a sociedade como comunidade concreta, a qual não se reduz a um conglomerado fortuito de indivíduos.” Logo, Jefferson, em sua função de agente político, deveria falar em ordem de cooperação e conciliação dos fins irrenunciáveis do homem. Este homem deveria ter consciência de ser autor das próprias ações, com exato comportamento de centro axiológico autônomo. E tal prática só será possível se Jefferson reconhecer a existência da personalidade alheia. Ele não reconhece: por imoralidade ou psicopatia.

No processo penal, como bem sabe o professor Jefferson, o ladrão que se apresenta como testemunha tem reduzidas chances de ser levado em consideração pelo júri. Seu testemunho na CPI, que apura crimes e atividades ilícitas a partir dos princípios do processo penal, terá como parâmetro a palavra de quem está prestes a ser cassado. É o condenado delator dos mafiosos que integram a quadrilha inimiga. A briga é por território.



- Postado por: Santista às 11h41 AM
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Paz em tempos de guerra
  
 


Vivemos um momento em que a necessidade de educar para a paz se impõe como única alternativa para a sobrevivência da humanidade – diante de tantos riscos de guerras, conflitos e tensões que favorecem o aumento da violência em todas as suas formas. O conceito da paz conheceu uma notável evolução nas últimas décadas e se tornou menos restritivo, compreendendo não somente o significado de ausência de guerra – mas também aquele de satisfação das necessidades básicas do homem, vinculando-se à superação de eventuais problemas entre países e pessoas para fomentar a convivência pacífica e propondo uma relação de semelhança entre os conceitos de paz e desenvolvimento sustentável.

O contrário da paz não é exclusivamente a guerra, mas todas as situações de injustiça, de desigualdade social, de ausência de respeito aos direitos fundamentais do homem – incluídos todos os comportamentos que minam os modos de coexistência pacífica entre os indivíduos; a cultura da paz necessita de uma base sólida – o respeito aos direitos do homem, garantindo a dignidade da existência humana, assegurando as condições de vida material e a realização das necessidades essenciais: educação, saúde e trabalho. Estas são premissas básicas para superarmos as inúmeras violações dos princípios da democracia e as diferenças entre ricos e pobres (indivíduos e países) que aumentam sempre de modo alarmante – agravadas pelo crescimento demográfico e pelas desigualdades sociais.

A humanidade se ressente das conseqüências de haver privilegiado – ao longo dos séculos – o desenvolvimento material sacrificando os valores morais e espirituais; o modelo de desenvolvimento adotado gerou graves desigualdades econômicas e sociais – além de profundas agressões ao ambiente natural. Preocupada em alcançar metas de desenvolvimento, grande parte da humanidade se tornou estéril; pessoas, sociedade e instituições de distanciaram dos valores espirituais e sufocaram o potencial ético.

O nosso mundo vive um período de mudanças aceleradas – e é um mundo em crise. Os indicadores econômicos, sociais e educacionais – além dos fatos políticos – revelam a necessidade de buscar soluções adequadas aos numerosos conflitos de interesse que se apresentam à humanidade – e impõem a necessidade de repensar modelos de desenvolvimento e sistemas de valores, além de encontrar respostas válidas às questões da globalização – especialmente quanto à convivência na diversidade.

Por outro lado, temos a possibilidade de agir – e evitar a ruptura entre os valores da nossa cultura e a economia subordinada às regras do mercado e dominada pelas novas tecnologias. A ruptura entre esses pólos essências da nossa experiência vital – onde se inserem os nacionalismos culturais como uma resposta à globalização – revela que grande número de conflitos neste mundo se reveste de uma dimensão cultural. Urgente, portanto, reconciliar esses pólos e combiná-los na visão de uma nova sociedade. É necessário um esforço criativo comum para dar novo sentido aos valores e fundar uma nova ética, buscar novas formas de vida privada e pública, novos hábitos e comportamentos que orientem a sociedade sobre a paz. Devemos estabelecer regras apropriadas ao contexto universal – baseadas essencialmente na solidariedade, no bem-estar do homem, no respeito às liberdades individuais e coletivas, à diversidade e ao patrimônio cultural da humanidade.

É imperioso perceber que os confrontos não são inevitáveis – quando sabemos criar as condições favoráveis à paz. Essa atitude principia por reconhecer que o desenvolvimento econômico e social não pode estar dissociado da sua dimensão cultural, sendo indispensável assegurar a comunicação e o diálogo entre as pessoas e as culturas: privilegiar e concentrar os esforços sobre o homem, em todo o planeta, propondo as bases de um novo humanismo. Um amplo esforço para promover a dignidade humana é essencial para a construção de um futuro de paz, uma sociedade harmoniosa onde os indivíduos e as culturas sejam reconhecidos – se quisermos assegurar a unidade na diversidade, preservando o planeta e a multiplicidade humana.



- Postado por: Santista às 11h36 AM
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De quem foi a idéia?
  
 


Na semana passada, enquanto os depoimentos e as discussões protagonizadas pelo deputado Roberto Jefferson sacudiam as estruturas políticas do Brasil, o governo federal anunciava uma série de medidas, ansiosamente aguardadas pelos brasileiros, mas que nesse momento soaram muito mais como estratégia de marketing do que como gesto afinado aos interesses da nação.

Claro que redução de tributos é sempre bem-vinda, claro que há muito tempo o setor produtivo sonhava em segurar a escalada da taxa Selic e todo mundo, incluindo o governo, sabe disso. Nossa torcida é de que tanto a estabilização dos juros quanto a chamada MP do bem sinalizem uma melhora substancial da economia, mas a verdade é que, por ora e para o cidadão, elas não significam muito. Os juros brasileiros continuam os mais altos do mundo e a MP do bem, além de ser apenas um sopro de alívio para setores isolados da economia, ainda esconde fragilidades como a isenção da taxa Cofins de alguns produtos. (A taxa tem aplicação social e sua manutenção é uma exigência da OMC, de modo que os empresários que se alegraram pensando que, com a isenção seus produtos seriam mais competitivos no mercado externo, podem ter uma surpresa desagradável e se verem barrados no baile do mercado internacional). Mais uma vez, nem tudo que parece realmente é.

Uma jogada como essa, de tirar da manga uma benevolência para desviar os holofotes de sobre as mazelas do poder, é manobra com a qual a sociedade já está habituada, mas não deixa de ser uma boa estratégia. Aliás, de boas estratégias o marketing do governo está cheio. À época das eleições, depois de Lula, a maior estrela da chegada de um operário à Presidência da República foi o marqueteiro Duda Mendonça. Ele desenvolveu e vendeu a imagem de um partido formado por intelectuais, capazes de levar o País às alturas jamais avistadas antes. Depois da vitória inédita do PT, as lições de marketing foram aplicadas a cada crise e agora, na maior, elas serviram para proteger o presidente.

A fumaça da corrupção invadiu o Partido dos Trabalhadores e se alojou na cúpula. Não digo que não aconteça, mas será no mínimo difícil Delúbio Soares e José Genoino se purificarem do aroma aspergido pelas denúncias de Jefferson. Como PT e governo nunca fizeram questão de se distanciar, é natural uma certa suspeita do povo em relação às instituições. O primeiro efeito disso foi a saída de José Dirceu da Casa Civil, em cadeia as mudanças em outras pastas. Será natural que esse governo passe para a história carregando a marca do escândalo. Mas, e o presidente?

Lula permanece incólume, não há vestígios de sujeira em sua imagem. Ele se destaca da crise, se destaca do partido que fundou, e ainda se destaca do próprio governo que comanda. As pesquisas de opinião mostram que a população acredita e estima seu líder e a popularidade de Lula ainda é suficiente para uma largada na dianteira na disputa pela reeleição. Essa capacidade de não se macular pode ser considerada um prodígio. Outros presidentes não foram capazes desse feito – Collor perdeu o cargo, Fernando Henrique ainda lida com uma alta rejeição popular.

A pergunta é: a proeza é mérito do presidente que sintetiza os anseios de uma nação ou de profissionais habilidosos em atingir as emoções do povo?

A história do presidente não pode ser ignorada e fazê-lo seria parecido com acreditar que o País não mereça menos imposto ou juros mais amenos. O carisma de Lula tem motivo, sua ascensão social se explica por uma trajetória de amadurecimento e revisão de conceitos. No entanto, há quem coloque em xeque a habilidade do presidente de se manter em sintonia com o povo. Em entrevista concedida à revista Veja, Fernando Gabeira, ex-PT, questionou a inclinação do governo e de Lula ao charme das criações de ilusões. “Lula deixou a história para entrar no Marketing”, foi o que Gabeira disse. Se ele estiver certo, temos que concordar que quem arquitetou tal estratégia foi muito bem-sucedido. Se for um plano, está funcionando bem. Mas, sendo essa hipótese verdadeira, quem será esse maestro genial da propaganda? Que equipe ou agência ou talento é esse que foi capaz de separar o Partido dos Trabalhadores de seu maior ícone, que conseguiu manter o presidente num campo de força de segurança enquanto o PT se expõe às dúvidas e aos questionamentos dos brasileiros?

As perguntas pairam e talvez não encontrem respostas, mas uma coisa é certa em relação a tudo isso: ilusões não duram para sempre; pelo contrário, desfazem-se rápido. A prova do mérito de Lula virá do futuro, e tomara que seja o Brasil a sair incólume dessa história.


- Postado por: Santista às 11h22 AM
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Inclusão digital
  
 


Estamos assistindo a um crescimento de referências à inclusão digital , mas os avanços alcançados não são suficientes para assegurar a democratização necessária. Pelo contrário, as iniqüidades se agravarão e uma política de inclusão digital é fundamental para reduzir distâncias e desigualdades socioeconômicas. Promover a modernização é caminho para a justiça social.

A inclusão digital tem de ser levada a cabo como uma aposta na cidadania. Creio que podemos mesmo definir este grande objetivo como proposta de isonomia digital. Os digitalmente excluídos estarão, em pouco tempo, impedidos de desfrutar os pressupostos da cidadania. Para impedir o avanço desta perspectiva temos de levar adiante a missão de consolidar as articulações e parcerias entre o setor público, a iniciativa privada e o terceiro setor para a difusão digital.

As crianças e jovens que atualmente não aprendem a lidar com as ferramentas da informática começam a ser injustamente condenados a serem barrados de um lugar ao sol no mercado de trabalho e no mundo do conhecimento. É importante para todos o acesso ao universo digital como caminho para o exercício da reflexão, da criatividade e da empregabilidade.

Os que podem oferecer alguma ajuda ao processo de inclusão digital devem mobilizar forças para construir um espaço de oportunidade para todos. A inclusão digital só será amplamente realizada com o comprometimento do Estado e da sociedade civil.

É preciso garantir que as crianças e jovens que precisam ser digitalmente incluídas encontrem as portas abertas para eles. Daí a importância de ações como o telecentro e a monitoria tecnológica com jovens da Fundação Pró-Cerrado encaminhadas pela Secretaria de Ciência e Tecnologia. Estes são programas efetivos para formar agentes tecnológicos e para a difusão digital.

O especialista em administração pública Jorge Hori previu, participando de livro editado pelo Senado sobre as perspectivas do século 21, que o avanço tecnológico vai propiciar o desencadeamento de profundas mudanças na ação social. A informatização e a transmissão do conhecimento por meios audiovisuais tornam-se componentes importantes no processo educativo.

Os professores vão deixando de ser transmissores de conhecimentos, passando a ser orientadores e motivadores do processo de aprendizagem. Os alunos teriam como centro de sua formação a busca da informação, a estruturação de raciocínios e o desenvolvimento de linguagens.

A modernização do ensino é outro desafio que caminha no mesmo sentido dessa exigente missão de assegurar a todos a oportunidade de acesso à inclusão digital.

No entanto esta modernização não diz respeito apenas ao desenvolvimento tecnológico. Ela é acima de tudo dependente de professores bem formados, trabalhando em escolas com infra-estrutura adequada e comprometidos com um projeto pedagógico crítico. Só assim a educação será instrumento verdadeiramente transformador de nossa realidade.

Acredita-se que a modernização dos procedimentos que tem na informática o carro-chefe está nos conduzindo para um admirável mundo novo, o que não será verdade para os digitalmente excluídos.


- Postado por: Santista às 11h25 AM
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Orgulho de ser brasileira
  


Somos uma nação “sui generis” em vários aspectos. Somos um povo cordial e intimista. Também racista. Em outro país o brasileiro é conhecido pelos apelidos, às vezes, de maneira diminutiva, como por exemplo: Ronaldinho, Aninha. Alguns ditados populares têm lá a sua razão de ser. A fama pegou. Para tudo existe um “jeitinho brasileiro”, no favor, no “quebra-galho”.

Em terra “brasilis”, a nobreza decadente ou a emergente burguesia lusitana, que não queria sujar as mãos com o rude trabalho há mais de 500 anos, se esmerou pelos lados do Brasil. Aqui são todos amigos. O adágio hindu informa sermos todos galhos da mesma árvore ou ondas do mesmo oceano. Que não poderia encontrar eco mais fecundo e propício que em nossas plagas.

Orgulho-me de ser brasileira.  De vez em quando sussurro minha nacionalidade. Não por causa da nossa mata atlântica, mares, samba, carnaval e futebol. O que perambula por aqui é o caráter pífio que ronda a aura da brasilidade. Ultimamente andamos com mania de dar aula mundial contra o preconceito. Quem somos nós?

Um desportista argentino preconceituoso foi punido por um brasileiro, que aproveitou o crime para encenar um País mais xenofóbico do que exemplar no combate ao abismo racial. É exatamente essa pátria que tem um jogador de futebol que se diz branco, mas é um dos maiores ícones multirraciais. Um Brasil de uma nação paulista, carioca, gaúcha, mineira, que subestima o resto do verde-amarelo e torna franzina a beleza de uma identidade.

Vejam que belo exemplo. Uma senhora viaja pela primeira vez de São Paulo para Goiânia. Nunca tinha entrado em um avião, assim como muitas donas de casa que vivem nas periferias do País. Vai de um lado para o outro, nervosa. Enfim, uma aeromoça pergunta se ela quer ajuda. Bilhete na mão, sorriso desconcertado. A mulher senta, se acomoda.

Atrás dela uma outra senhora, mesma idade, anéis e roupas vistas em calendários da famosa Daslu, “paraíso” de meia dúzia de brasileiros. A “dama” revira os olhos, respira fundo e expira pela boca, como se a outra, logo à frente, fosse um bafo de esgoto. Resmunga a frase que daria início a uma das situações de preconceitos mais duras, a que revela o abismo entre duas pessoas que vivem sob o mesmo céu.

“Esse povo do interior... A “dama” não precisou dizer mais nada. Exalou o apartheid brasileiro. Nitroglicerina a 10 mil metros de altura. Cabisbaixa a senhora “humilde do interior” ouviu e detonou a cena: “Sou daqui mesmo, e se a senhora está incomodada deveria viajar num avião mais caro, porque esse aqui é pra quem pode pagar R$ 350,00 em 12 vezes”. Creio eu, que a dama pensou: Tenho “orgulho” da minha nação, de ser brasileira. Nesta hora foram-se os anéis, ficaram os dedos.


- Postado por: Santista às 11h02 AM
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Santo de casa fez aparecer 1,1 milhão
  
 


Se o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) enfrenta seu inferno astral em Brasília, está no céu para a cúpula da Igreja Católica em Petrópolis. Há seis anos, a Mitra Diocesana tinha contratado uma empresa de promoções culturais com o objetivo de tentar obter patrocínio para a restauração de Catedral de São Pedro de Alcântara. E nada de conseguir o dinheiro. Bastou o padre José Augusto Carneiro, pároco da catedral, recorrer a Jefferson que o R$ 1,1 milhão necessário para a obra aparecer em três meses.

Tudo doação de estatais onde o PTB de Jefferson tinha poder e influência: o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) doou R$ 570,8 mil; a Eletrobrás, R$ 280 mil; e a Petrobras, R$ 285 mil. Com sua influência junto ao governo, Jefferson também conseguiu aprovação em tempo recorde do patrocínio no Ministério da Cultura, pela lei de incentivos fiscais, e do projeto de restauração no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A obra foi inaugurada com pompa em setembro de 2004 e agora nem o escândalo de corrupção nos Correios nem a confissão de Jefferson de que recebeu uma mala com R$ 4 milhões durante a última campanha eleitoral são capazes de abalar a reputação angelical que o deputado tem junto aos religiosos de sua cidade natal: “Lamento o que está acontecendo porque ele é uma pessoa de muitos valores. É um amigo por quem rezo todo dia e por quem torço muito”, diz o padre José Augusto, conhecido como padre Jac.

No auge da crise, o pároco da catedral já ligou duas vezes para confortar Jefferson em Brasília – uma delas no dia do depoimento no Conselho de Ética. Os dois rezaram juntos e o padre ouviu Jefferson dizer, com a voz embargada, que vai até o fim em suas denúncias. “Ele está servindo para passar o Brasil a limpo. Os pontos errados não cabe a mim apontar, mas ele está sendo um homem de coragem”, insiste o padre.

A restauração foi inaugurada na presença de Jefferson e do bispo de Petrópolis, dom Filippo Santoro. Padre Marcelo Rossi fez um de seus concorridos shows e os diretores das estatais receberam de presente réplicas em miniatura da catedral. Foram corrigidas infiltrações no telhado e rachaduras nos pináculos da igreja. Os sinos foram consertados.

Obra Fantasma – O problema é que a restauração do órgão da igreja, prevista no orçamento inicial, não foi executada. Segundo a Mitra Diocesana, o dinheiro foi gasto em problemas imprevistos na restauração. Na festa de inauguração, Jefferson prometeu mais R$ 300 mil para recuperar o órgão, que não toca há 25 anos. Mas agora, como o deputado virou adversário do governo Lula, a Mitra já sabe que a fonte secou e está tentando obter o dinheiro de outras formas.

Nada que abale a eterna gratidão: “Jefferson ajudou honestamente. Nunca chegou mala de dinheiro para pagar a obra na igreja. Preocupo-me mais com a salvação da alma que da carreira política, mas se ele perder a carreira vou lamentar ”, diz padre Jac.

Ele até admite que Jefferson tenha cometido pecados em sua atuação política, mas diz que sua obrigação é confortar o deputado e mostrar que o mecenas das obras na Catedral “não está sozinho”: “Se ele tiver errado diante de Deus, que se recupere; se for inocente, que possa provar sua inocência. Que seja feita justiça, mas com misericórdia. Muitas vezes não se faz justiça, mas vingança.”




- Postado por: Santista às 09h48 AM
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O lobby perigoso
  
 


Não sou dona da verdade. Nem sei se conheço alguma nesses últimos tempos de tantas mentiras, mas, de vez em quando, me meto a procurá-la pelos mais variados caminhos. Foi nesta busca que, há cinco semanas, neste cantinho em que agora conversamos (melhor, monologo com você), encerrei a crônica na qual deduzi que nenhuma reforma, pra mim, alcançará sucesso se não solucionar a maneira de atuação de lobby, tirando-o da clandestinidade e dando-lhe papel de instrumento de reivindicação de todas as classes, categorias, grupos, e jamais de ferramenta para abrir as portas dos poderes nos escaninhos da ilegalidade. De ressaltar, ainda, o indispensável comando dos partidos políticos nessas tratativas.

Quando vi Roberto Jefferson apontar, em seu depoimento perante o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, ao estilo metralhadora giratória, para os partidos ali representados e garantir que “... os dinheiros vêm dos empresários, que a maioria das vezes mantêm relação com as empresas públicas...”, entendi que ele não cortava na própria carne, e sim, enchia as mãos de vísceras, repletas de ferimentos, do sistema partidário, àquela hora nu e indefenso, como principal responsável pelos abalos das instituições.

Roberto Jefferson não trouxe novidade, toda a Nação sabe. De preferência, igual tribuno, hoje inigualável na espécie, usa os fatos – públicos e notórios – numa defesa cujos resultados são imprevisíveis pra si e pros outros. As Comissões Parlamentares de Inquéritos possuem poderes investigatórios e políticos (estes sem limites, aí a questão) que conseguem as provas que quiserem. Portanto, hora menos indicada para as reformas das leis. Sob violenta emoção ninguém raciocina dentro de padrões lógicos. Primeiro as apurações, depois as correções. Até porque, alguns dos assentados no banco dos réus são os partidos políticos.

O lobby perigoso sempre esteve instalado nas instituições brasileiras do Império e da República. Urge tirá-lo do fundo do quintal. Exigir-lhe operação transparente, com os registros necessários. Funcionar como qualquer empresa ou profissão. E, nos meios do interesse público, sujeitar-se ao controle social da mesma forma que todas as pessoas.

Sem nenhum receio de ser atrevido e intrometido: reforma político-partidária que não regulamentar o lobby (ou pressão) está contaminada de má-fé e, com certeza, acrescentará parágrafos ao discurso de Roberto Jefferson, que não terminou só naquilo.



- Postado por: Santista às 09h42 AM
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