| Quem só fala o que quer... fala bobagem!
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Falar de liberdade e a democracia está em voga como nunca. Se o assunto é casamento gay, alguém vai dar um jeito de encaixar a liberdade e a democracia na conversa. Aborto de feto anencefálico? Liberdade e democracia. Orkut? Liberdade e democracia. Banda escolhida em um concurso para novos artistas em Brasília? Liberdade e democracia.
Até aí, nada demais. É até salutar que toda população tenha consciência e discuta as particularidades da liberdade e democracia. Um povo consciente do que é cada ponto destes é positivo. Faz bem para o Brasil. O problema é a bagunça teórica em que tudo se transforma quando não se tem noção alguma de nada. De tanta pasmaceira que se diz, às vezes me dá tédio de entrar no papo de liberdade e democracia.
Invariavelmente, liberdade e democracia são invocadas por quem não faz a menor questão da existência destas, quando sabem o que é cada coisa. Na maioria das vezes, entretanto, não costuma ter nem idéia do que se trata cada coisa. Mas saem por aí proclamando bobagens e bobagens.
Por exemplo, em uma conversa corriqueira não me lembro onde, alguém defendia a “liberdade de expressão”. E, sem fundamentação alguma, justificava sua defesa embasado no ponto de que qualquer um tinha o direito de se expressar anonimamente, atacando quem quer que fosse, em nome daquele conceito. “Afinal de contas, onde está a liberdade de expressão?”, disse. Me segurei para não bocejar na frente dos presentes. Liberdade pressupõe responsabilidades gigantescas. Caso contrário, em nome da liberdade de expressão, deveríamos tirar do Código Penal crimes como injúria e calúnia. Sabe como é, eles impedem a “liberdade de expressão”. “Santa bobagem”, diria Robin. Você pode e tem o direito de dizer qualquer coisa que lhe passe pela cabeça sim, desde que assuma as responsabilidades das palavras. E essa responsabilidade não pode ser ponderada caso a afirmação tenha sido proferida de maneira anônima. Isso não é liberdade de expressão, é ofensa pura.
Também falam muita asneira quando citam a tal da democracia. Os maiores absurdos são ditos na defesa ou fundamentados nesta. Um dia desses, outra pessoa defendia a diversidade religiosa com veemência. Dizia ele que “toda religião deve ser respeitada, independente de seus dogmas”. “A Constituição garante a liberdade de culto, e isso é a democracia”, argumentava. Mas a situação não é bem assim. Para ser democracia, as ações devem ter uma razoabilidade mínima. Desenvolvendo o conceito do cara, por exemplo, vamos supor que alguém, fundamentado nessa “democracia” e “liberdade de culto”, passe a defender a prática de sacrifícios de crianças em louvor a seus deuses. E se, além da defesa, ele for para a prática da coisa? Não dá para aceitar, mesmo sendo um culto que, em tese, estaria garantido na Constituição e pela democracia. Mas essa prática não é razoável para os padrões sociais. Logo, democracia não é tudo que se quer fazer, e sim fazer tudo dentro de certos deveres e responsabilidades.
Mas, para quem estou escrevendo isso mesmo? Afinal de contas, quem proclama essas besteiras na rua nunca leu nem livro da coleção Vaga-lume... Quem dirá um jornal diário!
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- Postado por: Santista às 09h31 AM
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Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, já teve tantos casamentos que interrompeu o último no meio da cerimônia porque se deu conta de que estava se casando outra vez com um ex-marido. O que contrariava seu lema, “Repeteco, não!”. Ela está pensando em usar um carimbo com tinta indelével para identificar seus maridos e evitar que isto aconteça de novo. Já que não pode confiar na memória, pois só o que lembra dos maridos é o número da sua conta bancária e nunca liga o saldo à pessoa. Dorinha acha que sabe o que está causando sua falta de memória: desconfia que a lipoaspiração está levando seus neurônios. Diz: “Eu já tinha ouvido falar em memória da água, mas memória da celulite é ridículo.” As memórias não lhe fariam tanta falta se ela não estivesse escrevendo sua autobiografia e... Mas passemos à sua carta, que, como sempre veio escrita com tinta turquesa em papel rosa perfumado, com “Dora Avante” em relevo em cima e um espaço para o sobrenome do marido do momento, em branco.
“Caríssimo! Beijos com respingo. Quando os franceses lançarem um perfume chamado Vexame, pode ter certeza que será para mim. Como se não bastasse a minha gafe quando nossa ONG ‘soit qui mal y pense’, as Socialaites Socialistas, foi a um churrasco na Granja do Torto e eu me distraí e chamei o ministro da Fazenda de Palofi, e voou farofa na barba dele, mais esta: eu querendo escrever minhas memórias para contar tudo e não me lembrando de nada. Algumas das minhas memórias, é verdade, são remotas demais para serem recuperadas sem o auxílio da arqueologia, embora não seja verdade que quando eu fiz o primeiro ‘top-less’ do Brasil o padre Anchieta ficou tão perturbado que errou a escrita. Mas participei de toda a história recente da Nação, boa parte da qual aconteceu na minha cama. E não me lembrava da metade! Mas agora encontrei um jeito de lembrar, ou ser lembrada. Anunciei que estava escrevendo minhas memórias e não pára de aparecer gente pedindo, e até oferecendo dinheiro, para eu não contar ‘aquilo’. Pergunto ‘aquilo o quê?’, e aos poucos minhas memórias estão voltando. Vou contar tudo. A república talvez não sobreviva. Da tua genial Dorinha.”
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- Postado por: Santista às 09h27 AM
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Recebi de um amigo um e-mail sobre a quantidade de impostos que pagamos. Fiquei surpreso. Por isso estou compartilhando com vocês as informações.
Espantem-se:
01 – Adicional de Frete para Renovação da Marinha Mercante – AFRMM (Lei 10206/2001); 02 – Contribuição à Direção de Portos e Costas (DPC); 03 – Contribuição ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FNDCT (Lei 10168/2000); 04 – Contribuição ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), chamado “Salário Educação”; 05 – Contribuição ao Funrural; 06 – Contribuição ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra); 07 – Contribuição ao Seguro Acidente de Trabalho (SAT); 08 – Contribuição ao Serviço Brasileiro de Apoio a Pequena Empresa (Sebrae); 09 – Contribuição ao Serviço Nacional de Aprendizado Comercial (Senac); 10 – Contribuição ao Serviço Nacional de Aprendizado dos Transportes (Senat); 11 – Contribuição ao Serviço Nacional de Aprendizado Industrial (Senai); 12 – Contribuição ao Serviço Nacional de Aprendizado Rural (Senar); 13 – Contribuição ao Serviço Social da Indústria (Sesi); 14 – Contribuição ao Serviço Social do Comércio (Sesc); 15 – Contribuição ao Serviço Social do Cooperativismo (Sescoop); 16 – Contribuição ao Serviço Social dos Tranportes (Sest); 17 – Contribuição Confederativa Laboral (dos empregados); 18 – Contribuição Confederativa Patronal (das empresas); 19 – Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico – Cide Combustíveis (Lei 10336/2001); 20 – Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública (Emenda Constitucional 39/2002); 21 – Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional – Condecine (art. 32 da MP 2228-1/2001 e Lei 10.454/2002); 22 – Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF); 23 – Contribuição Sindical Laboral; 24 – Contribuição Sindical Patronal; 25 – Contribuição Social Adicional para Reposição das Perdas Inflacionárias do FGTS (Lei Complementar 110/2001); 26 – Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); 27 – Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL); 28 – Contribuições aos Órgãos de Fiscalização Profissional (OAB, CRC, Crea, Creci etc.); 29 – Contribuições de Melhoria: asfalto, calçamento, esgoto, rede de água, rede de esgoto etc.; 30 – Fundo Aeronáutico (Faer); 31 – Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações – Fust (art. 6 da Lei 9998/2000); 32 – Fundo de Fiscalização das Telecomunicações – Fistel (Lei 5070/1966 com novas disposições da Lei 9472/1997); 33 – Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS); 34 – Fundo Esp. de Desenvolvimento das Atividades de Fiscalização (Fundaf) – (art. 6 do Decreto-lei 1.437/1975 e art. 10 da In SRF 180/2002); 35 – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS); 36 – Imposto sobre a Exportação (IE); 37 – Imposto sobre a Importação (II); 38 – Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA); 39 – Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU); 40 – Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR); 41 – Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza (IR – pessoa física e jurídica); 42 – Imposto sobre Operações de Crédito (IOF); 43 – Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS); 44 – Imposto sobre Transmissão Bens Inter-vivos (ITBI); 45 – Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD); 46 – INSS Autônomos e Empresários; 47 – INSS Empregados; 48 – INSS Patronal; 49 – IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados); 50 – Programa de Integração Social (PIS) e Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep); 51 – Taxa de Autorização do Trabalho Estrangeiro; 52 – Taxa de Coleta de Lixo; 53 – Taxa de Combate a Incêndios; 54 – Taxa de Conservação e Limpeza Pública; 55 – Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental – TCFA (Lei 10.165/2000); 56 – Taxa de Controle e Fiscalização de Produtos Químicos (Lei 10357/2001, art. 16); 57 – Taxa de Emissão de Documentos (níveis municipais, estaduais e federais); 58 – Taxa de Fiscalização de Vigilância Sanitária (Lei 9782/1999, art. 23); 59 – Taxa de Licenciamento Anual de Veículo; 60 – Taxa de Licenciamento para Funcionamento e Alvará Municipal; 61 – Taxa de Pesquisa Mineral DNPM (Portaria Ministerial 503/99); 62 – Taxa de Serviços Administrativos – TSA – Zona Franca de Manaus (Lei 9960/2000); 63 – Taxas ao Conselho Nacional de Petróleo (CNP); 64 – Taxas de CVM (Comissão de Valores Mobiliários); 65 – Taxas de Outorgas (Radiodifusão, Telecomunicações, Transporte Rodoviário e Ferroviário etc.); 66 – Taxas de Saúde Suplementar – ANS (Lei 9.961/2000, art. 18); 67 – Taxas do Registro do Comércio (Juntas Comerciais); 68 – IUM – Imposto Único de Minerais.
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- Postado por: Santista às 09h21 AM
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Uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é “useiro e vezeiro” em se comunicar através de parábolas ou máximas extraídas da sabedoria popular, no caso de suas recentes declarações sobre culpados pelos juros altos, aqui vai uma: sua excelência “senta-se no próprio rabo e fica a criticar o dos outros”.
Segundo os jornais de terça-feira, 26 de abril, o presidente afirmou que as pessoas reclamam dos juros dos bancos e dos cartões de crédito, mas “não tiram o traseiro da cadeira” para mudar de banco e assim tentar conseguir taxas de juros mais baixas. Disse mais: “Se as pessoas tivessem consciência, não pagavam 8% de juros ao mês, até porque não é pobre que tem cartão de crédito, é uma classe mais sabida intelectualmente, de maior posse.”
O brasileiro, em geral, deixa de participar de certas lutas reivindicatórias, atribuindo aos dirigentes públicos a exclusividade de causas sociais, a exemplo do combate à violência. Claro que uma mobilização ampla e consistente resultaria numa redução, nesse item, dos alarmantes índices atuais. Uma corrente unindo governo e povo será importante.
Mas quanto aos juros qualquer movimento das pessoas em combatê-los estará na contramão. Porque, aí, ao contrário do que acreditamos ocorra quanto à violência (não há porque supor queira o governo incrementá-la), há uma política oficial voltada para subi-los cada vez mais. E trata-se de programa de governo, com força de lei. Temos, de longe, os juros básicos mais elevados do mundo, beirando os 20%, sendo que em segundo lugar vêm os juros praticados na Rússia, de 13%.
O presidente justificar os juros determinados pelo Banco Central é compreensível, embora discutível. No campo econômico, há mesmo os que acreditam na eficácia de juros elevados como método de combate à inflação. Mas há também aqueles que pensam o contrário. Durante a mais recente crise da economia japonesa, o que fez o governo do Japão? Reduziu os juros para acelerar o consumo e assim aquecer a economia. Que, a pleno vapor, produzindo, além de gerar empregos, promoveu a estabilidade de preços, evitando assim a alta da inflação.
É preciso considerar que a inflação não é o mal único, em matéria econômica. Autorizar, nesse momento, a importação de milho, em plena crise de nossa agricultura, é desastroso. Porque desestimula a produção interna, gera mais desemprego e assim incrementa a própria inflação.
Habituado ao uso do estilingue, o presidente não consegue adaptar-se à condição de vidraça. Antes, na oposição, era muito fácil atribuir toda a culpa ao governo. Agora que é governo, quer transferir a culpa pelos juros elevados à população. Logo ele que, para colocar em prática o que prega, nem precisaria “levantar o traseiro da cadeira”. Bastaria usar o telefone ou a caneta. Estará faltando tinta?
Se o presidente quer mesmo juros mais baixos, una-se ao clamor geral. Seja um aliado de seu vice-presidente, José Alencar, bem como dos “mais sabidos intelectualmente” (os que têm cartões de crédito) e sobretudo dos que se acham lá no pé da pirâmide social, desejosos de adquirir um liquidificador ou qualquer outro eletrodoméstico a prestações e quando o fazem são vítimas dos altos juros.
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- Postado por: Santista às 09h20 AM
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Na segunda metade da década de 1970, Perón voltou ao poder na Argentina. Ficou na minha memória um pronunciamento do mito platino: a Argentina precisava aumentar sua população - na época, equivalente à do Nordeste brasileiro - porque era “perigoso ser vizinho de um gigante quatro vezes maior”. Nessa época, havia a preocupação dos chineses sobre os riscos de uma hiper-população: os chineses já eram um quarto de toda a humanidade viva e, por isso, só se permitia um filho por casal.
Para um professor de geografia, cioso de sua função maior - a de educador - e zeloso do conteúdo de suas aulas, esse aspecto vinha de encontro a uma dúvida doméstica: o controle familiar. Dez anos depois da decantada revolução sexual, a pílula anticoncepcional vendia mais que telefone celular atualmente.
Sabe-se que a humanidade cresceu assustadoramente no último século. E sabe-se também que nunca a humanidade se desenvolveu, cientificamente, quanto nesse Século XX. Mas, leitores, vejam que a evolução do automóvel e da televisão, os avanços da medicina, a facilidade das viagens e o milagre da Internet são processos apenas externos - como ouvi de um professor na Rádio Companhia, à hora do almoço, neste 26 de abril. Ele tem razão: o que melhorou no interior das pessoas? O que fizemos no aspecto da educação? Os valores morais têm melhorado? Afinal, estes são os que asseguram uma melhoria real nas relações humanas. Se temos hoje computadores para tudo - até para se criar galinha - bem poderíamos ter melhorado, também, a qualidade moral dos valores que regem as relações entre as pessoas.
Há alguns anos, minha mãe contou-me a história de um casal que, ao festejar bodas de prata, vivia uma terrível crise de tristeza: o casal não teve filhos; aliás, teve um, mas o garoto morrera atropelado, aos quatro anos de idade. Só que, quando do parto, a mãe convencera o marido de que ter mais de um filho seria injusto e nada amoroso, que eles deviam concentrar todo o amor apenas naquele que acabara de nascer. E mandou cortar as trompas e o ovário. Esse casal completou, há poucos meses, 58 anos de vida a dois. Dois mesmo: e de tédio, insegurança e muitas outras mazelas.
Tenho um casal de amigos que escolheu também só ter um filho. Este, portador de um problema de ordem cerebral, exige cuidados especiais. Mas a deficiência só foi notada três anos após a mãe ter escolhido o mesmo que o casal da história que me contou Dona Lilita. A concentração de todas as atenções no único filho entristeceu a vida dos pais.
Pensei, cá: Puxa! Mais de um filho em casa pode comprometer as questões de macro-economia, mas como felicita uma familia! O amor não é um pote de geléia, que, para servir mais de um, há de ser dividido. Amor que se espalha é grama que se multiplica, é cheiro de flor exibida, feito a dama-da-noite. Amor que se dá a amigo e amor que se dá a filho são amores que se espalham como a lua em serenata. O resto é falta de poesia e de crença no que realmente vale a pena.
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- Postado por: Santista às 10h07 AM
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Quem de nós já não viveu a experiência de não saber como iniciar um texto? Seja uma carta de amor (que não seria tola se não fosse carta de amor), um e-mail a um amigo, uma redação qualquer. Sempre que começamos a escrever, temos a impressão que somos principiantes, algo parecido com um marinheiro de primeira viagem, navegando em águas revoltas. No caso, o infinito oceano das palavras. É importante ter em mente que não existe um texto imutável, pronto e acabado. Basta uma leitura superficial para se eliminar redundâncias, chavões, gerúndios, artigos e o vício do “lugar- comum”. Também não vale a estratégia de escrever uma coisa que não sabe com o pensamento de que ficará sabendo.
Não é raro ver pessoas que dizem: “Não escrevo porque não tenho inspiração”. Se for assim, estamos condenados ao determinismo de só escrevermos quando estamos inspirados. Joga-se por terra o conhecimento adquirido, o uso correto da gramática e, por que não dizer, a transpiração. Um bom texto pressupõe raciocínio lógico. Pessoas com idéias desorganizadas na cabeça costumam ter dificuldades de escrevê-las numa folha de papel.
Não tenha vergonha de passar alguns minutos à procura da palavra ou do fecho de uma frase. Também não se incomode em reescrever o texto uma, duas, três, quatro vezes se necessário.
Em dado momento, você pode se questionar: “Não quero repetir as coisas já ditas, inclusive por mim, o que infelizmente às vezes acontece. Para isso tenho que desaprender o que aprendi, me livrar dos preconceitos, das idéias que me foram impostas, de tudo enfim que possa tolher a minha liberdade de expressão”.
Mas um escritor de futuro sabe que a busca do texto ideal exige perseverança, trabalho duro mesmo. A palavras têm peso, som e aparência. Queimam como fogo, cortam como faca, derrubam feito vento. Por isso, todo cuidado é pouco. Não se admite, por exemplo, escrever sobre uma assunto sobre o qual não se tenha domínio. Corre-se o risco de não apenas falar bobabens, mas se reduzir diante dos leitores.
Um dos mais festejados escritores brasileiros, Fernando Sabino, disse um dia que desde criança achava que a verdade estava muito além da realidade. Para ele, nossos sentidos eram fracos e deficientes, de pouco alcance: a vista devia enxergar mil quilômetros e ver através das paredes; o ouvido devia ouvir além da barreira do som. Conta-se que um dia perguntaram a Lúcio Cardoso por que ele escrevia.
Porque não tenho olhos verdes, respondeu o romancista mineiro.
Talvez esse não seja o seu caso, leitor. Sabino tinha seus motivos. “Escrevo porque me sinto descompensado em relação à realidade que me cerca. Preciso de uma verdade fora de mim em que me agarrar, para ser do meu tamanho – nem maior, nem menor. A minha realidade interior vive abaixo do nível que me cerca. Para restabelecer o equilíbrio, num contato normal com os demais seres humanos, tenho que escrever. Como O Tabuleiro de Damas de meu livro com este título, que não é nem branco com quadrados pretos e nem preto com quadrados brancos e sim, de outra cor, com quadrados pretos e brancos; assim também, a recriação da realidade pela imaginação, através da linguagem escrita, é a maneira que tenho de me comunicar. Vivo para escrever, escrevo para sobreviver”.
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- Postado por: Santista às 10h23 AM
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| Polêmica da clonagem humana
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A clonagem de seres vivos tem sido um vasto campo de experiências científicas há várias décadas, porém só ganhou visibilidade popular em 1997, quando foi anunciada a primeira clonagem bem-sucedida de um mamífero – a ovelha Dolly. Desde então, vários cientistas expressaram o objetivo de clonar um ser humano. Além da ovelha Dolly, muitos animais já foram clonados, tais como ratos, vacas, gatos e outras ovelhas.
Alguns países sancionaram leis que proíbem a clonagem de seres humanos. Entretanto, para alguns cientistas, leis são obstáculo. O dado concreto é que há pouca chance de se impedir legalmente a clonagem de seres humanos.
Os primeiros experimentos mostram que os custos de uma clonagem são bastante elevados, muito embora recursos financeiros não faltem para o desenvolvimento desta tecnologia para obter fama e uma possível fortuna, ou por razões emocionais: o desejo de duplicar uma pessoa querida que está doente ou que já faleceu.
Os opositores da clonagem humana argumentam que a raça humana está tomando um caminho muito perigoso e possivelmente irreversível, que pode trazer graves conseqüências ao mundo. Lembram que a tecnologia de clonagem é ainda bastante pobre. E mais: a média de sucesso em experiências de clonagem é de apenas 3%. Muitos clones nascem defeituosos e morrem pouco após seu nascimento. Além disso, a duplicação de seres humanos implica em questões éticas e morais.
Há quatros anos, um seleto grupo de cientistas comandado por Panayiotis Zavos, ex-professor da Universidade de Kentucky, e por um pesquisador italiano, Severino Antinori, anunciaram o objetivo de clonar um ser humano. Eles e quaisquer outros cientistas que desejem clonar seres humanos provavelmente utilizarão o mesmo procedimento que foi usado para criar a ovelha Dolly. Esta técnica de clonagem é chamada de transferência nuclear da célula somática.
A transferência nuclear da célula somática tem início quando o médico tira o óvulo de uma doadora e remove o núcleo do óvulo. Fazendo isso, ele cria um óvulo desprovido de núcleo. Uma célula contendo DNA é então retirada da pessoa que está sendo clonada. Por meio de eletricidade, o óvulo desprovido de um núcleo é fundido com a célula contendo o DNA do ser humano que está sendo clonado. Forma-se então um embrião, que é implantado na mãe de aluguel, aquela que forneceu o óvulo. Caso o procedimento seja bem-sucedido, a mãe de aluguel dará à luz uma cópia exata da pessoa clonada (de quem foi retirada a célula com DNA) ao fim de um período normal de gestação.
Mas nem toda forma de clonagem humana envolve a criação de um ser humano completo. Ao invés de replicar pessoas, o processo de clonagem pode ser usado para ajudar pessoas com sérios problemas médicos. Por exemplo, cientistas poderiam clonar as células de uma pessoa e consertar genes mutantes que causam doenças. Em janeiro de 2001, o governo britânico sancionou leis permitindo a duplicação de embriões humanos com fins específicos na pesquisa de doenças, Parkinson e Alzheimer.
Os cientistas favoráveis a essa técnica de engenharia genética argumentam que um dos propósitos da clonagem humana é a clonagem terapêutica, processo pelo qual o DNA de uma pessoa é utilizado para criar um embrião. Ao invés de inserir este embrião em uma mãe de aluguel, suas células são usadas para produzir células-tronco que são capazes de evoluir para diversos tipos de células do corpo. Estas células-tronco podem, portanto, serem utilizadas para criar órgãos humanos, tais como corações, fígados e pele. Estas células-tronco também podem fazer crescer neurônios capazes de curar aqueles que sofrem de doenças como o mal de Parkinson, de Alzheimer ou síndrome de Rett.
A clonagem humana pode também ser utilizada por casais que não conseguem ter filhos, mas que desejam ter filhos que possuam atributos biológicos de pelo menos um dos pais. Esta forma de clonagem envolveria a injeção de células de um homem estéril em um óvulo, que seria implantado no útero da mulher. A criança seria então igual ao pai.
O propósito mais polêmico de clonagem humana é o de replicar pessoas que já morreram. Um casal norte-americano, que não se consola com a morte de sua filha, está oferecendo $50.000 para que um laboratório chamado Clonaid clone sua filha falecida, utilizando células preservadas de sua pele. Se a morte é uma tragédia para a maioria dos seres humanos – tanto de pessoas como de seus animais – alguns vêem na clonagem uma forma de amenizá-la, substituindo a pessoa ou animal de estimação por alguém com exatamente a mesma composição genética.
À medida que o homem percorre o caminho da engenharia genética, os estudos mostram que há muito o que se investigar. Foram necessárias, por exemplo, 276 tentativas para a duplicação da ovelha Dolly. Recentemente, uma gata doméstica chamada Cc foi clonada, após 87 tentativas – menos que no caso de Dolly, mas ainda apresentando baixa média de sucesso. A pergunta que se faz: o que a Ciência faria com os embriões ou recém-nascidos cujo processo de clonagem apresentasse falhas? Trata-se de uma tecnologia que está ainda em seus estágios iniciais, e quase 98% das tentativas de clones não obtêm sucesso. Os embriões geralmente não são adequados para serem implantados no útero, ou morrem durante a gestação ou pouco antes do nascimento. Os poucos clones que sobrevivem ao processo costumam não ter vida longa ou saudável. Normalmente têm problemas com órgãos vitais como o coração, possuem um sistema imunológico fraco e morrem pouco após o nascimento. É muito provável que o mesmo venha a ocorrer com os primeiros clones humanos.
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- Postado por: Santista às 08h26 AM
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O presidente negro
Em sua recente viagem à África, o presidente Lula ganhou o título de “primeiro presidente negro do Brasil”. Louvável título, inclusive pela utilização da corajosa palavra “negro”, uma palavra que deve dar orgulho em quem puder usá-la a respeito de si mesmo
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| “O presidente negro” é o título de uma novela de Monteiro Lobato, em que o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos descobre que o mesmo processo de alisamento de cabelos que ele ajuda a patrocinar para seus colegas de cor, e que ele mesmo fizera, também esterilizava as pessoas. É claro que esta história foi escrita e publicada bem antes do “black is beautiful” dos anos sessenta do século passado.
Agora o presidente Lula ganhou este título com sua viagem à África, de ser “o primeiro presidente negro do Brasil”. Louvável título, inclusive pela utilização da corajosa palavra “negro”, uma palavra que deve dar orgulho em quem puder usá-la a respeito de si mesmo, como agora o nosso presidente pode fazer.
A viagem do presidente coincidiu com o caso Desábato aqui no Brasil, em que este jogador do Quilmes insultou seu colega de profissão Grafite, do São Paulo, usando termos racistas. A detenção do jogador foi medida acertada, sem dúvida, mas é curioso observar a variedade das reações, indo desde quem a achou um exagero, até aqueles que apontaram, com um excesso de zelo de “political correctness”, já haver racismo no apelido – Grafite. O próprio presidente Lula, embora seja pernambucano, ganhou o apelido de “Baiano” entre seus antigos colegas de profissão, os metalúrgicos de São Bernardo, e não me consta que aí houvesse o “animus injuriandi” que deve acompanhar qualquer insulto.
É comum no Brasil dar-se apelido aceito pelo apelidado, baseando-se em características físicas ou a sua origem regional. Ademais, na nossa prática da língua portuguesa uma palavra pode ter vários sentidos conforme o tom em que é dita ou o adjetivo que a acompanha. Não temos ainda o equivalente a uma palavra como a do inglês – “nigger” – ou a do francês – “nègre” – que, quando ditas, são insultantes e racistas quase sempre. Assim mesmo descobri em países africanos de língua francesa que há casos em que a população prefere o termo “nègre” ao “noire”, que é considerado racista por aludir à cor, não a uma condição social e cultural.
A viagem do presidente Lula à África foi bonita (basta ver as imagens), foi uma façanha diplomática para o presidente e para o nosso país, e também foi uma extraordinária contribuição para o combate ao racismo no mundo e em nossa terra. Naturalmente houve quem torcesse o nariz, achando a viagem de pouco interesse comercial, ou diplomático. Mas os ganhos de relacionamento, os ganhos culturais, os ganhos sociais dessa viagem foram inestimáveis, e certamente, a longo prazo, terão repercussão em todos os outros campos da vida brasileira e da política internacional.
Desconheço atitude parecida, como a de pedir desculpas pela escravidão, da parte de qualquer outro mandatário mundial. Não me consta que algum presidente, primeiro ministro ou monarca europeu tenha pedido desculpas pelos horrores que os colonialismos e imperialismos perpetraram no continente africano. Talvez em Portugal tenha havido algo parecido depois da Revolução dos Cravos, de 1974; pelo menos houve um pedido de desculpas pela morte do Tiradentes, cujo aniversário se avizinha, e que assim mesmo só foi considerado herói da pátria depois da proclamação da República e do fim da dinastia de Orleães e Bragança.
Assim o título recebido pelo presidente vale tanto ou bem mais do que qualquer outra comenda que ele venha a ganhar. É algo da importância, em termos brasileiros, igual à de ganhar a Copa do Mundo, não qualquer uma, aquela, a de 1958, que jogou a história do nosso futebol e esporte mais popular num patamar do qual ele nunca mais saiu.
Esperemos que essa viagem do presidente Lula, além de trazer benefícios imediatos ao nosso país e aos africanos, coloque, com o título de “primeiro presidente negro” do Brasil, nossa luta contra os preconceitos todos num trilho de que ela não mais se desvie, o de sermos firmes contra eles sem perder a liberdade de usar palavras de afeto que a tradição das lutas libertárias nos legou, como “negro”, “negrinho”, “nego”, sem esquecer mesmo a palavra “crioulo” que, na verdade, quer dizer “da terra”.
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- Postado por: Santista às 06h49 PM
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A força da visão ideológica neoliberal
Muitas vezes, a crítica de que o governo Lula perdeu o controle do gasto público não se sustenta à luz da realidade. Basta fazer a simples comparação entre o conjunto de despesas dos dois últimos anos do governo FHC com os dois primeiros da atual administração.
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Uma nova etapa no campeonato nacional de oposição ao Estado brasileiro foi recentemente aberta. Nos últimos meses, a visão anti-Estado tornou-se bem mais virulenta com o destampar de críticas ao governo Lula, justamente em decorrência ao que se chamou pejorativamente de farra dos gastos públicos.
Em grande parte das vezes, têm sido versões que quase nada se sustentam à luz da realidade. O que se identifica, por exemplo, como sendo farra do gasto público, desfaz-se rapidamente diante da simples comparação entre o conjunto de despesas dos dois últimos anos do governo FHC com os dois primeiros anos de governo Lula. Entre 2003 e 2004, o governo Lula apresentou uma despesa total média anual de 468,7 bilhões de reais, enquanto o governo FHC, entre 2001 e 2002, terminou comprometendo o valor médio anual de 477,8 bilhões de reais. Ou seja, as contas públicas do governo Lula foram 1,91% menores do que as de FHC, quando atualizadas pela inflação.
Há ainda as velhas e recorrentes críticas ao apelo efêmero do “absurdo” gasto com pessoal. Também aqui não há como prosperar, por hora, qualquer consistência que resista à luz da realidade. Nos dois últimos anos do governo FHC, por exemplo, a despesa com funcionário público foi de quase 96 bilhões de reais. Nos dois primeiros anos do governo Lula, o gasto com o funcionalismo público conseguiu ser, por incrível que possa parecer, 21,8 bilhões de reais a menos, atingindo apenas R$ 74,1 bilhões.
Frente ao corte de quase 23% no total das despesas de pessoal entre 2003 e 2004, torna-se difícil compreender a crítica contra o gasto público federal. Mas, mesmo assim, prossegue a febre anti-Estado, sinalizada pela constatação de que os municípios brasileiros teriam contratados 630 mil novos funcionários durante os três últimos anos do segundo governo FHC.
Com o maior número de funcionário público, o conjunto de municípios brasileiros passou a ter, em média, um servidor municipal a cada 42,3 habitantes. Acrescentando-se a isso, a parte de funcionários referentes às esferas estaduais e federal, o Brasil passou a ter cerca de um empregado do Estado para cada 20 habitantes.
Se comparado com outros países, o Brasil teria ainda muito que avançar. Na França, por exemplo, há menos de 9 habitantes para cada um servidor público, enquanto na Inglaterra a relação é de 1 para 16.
Se considerada a quantidade de empregados públicos em relação à população ocupada, a discrepância é ainda mais elevada. Enquanto o Brasil possui 1 empregado público a cada 10 ocupados, países como Estados Unidos e Inglaterra possuem a mesma relação de 1 servidor público para cada 6 ocupados e na França e Itália, a situação seria de 1 para 4.
Insatisfeitos com a realidade tal como ela se apresenta, sobram para alguns representantes dos interesses privados, as críticas em relação às despesas comprometidas com a contratação de serviços terceirizados. De fato, a reforma trabalhista branca que ocorreu no Brasil desde 1990 apontou para a substituição de empregados públicos por terceirizados do setor privado.
No município de São Paulo, por exemplo, a privatização do serviço público foi levada ao limite durante os anos 90. Praticamente, quase tudo foi terceirizado, da segurança ao transporte de pessoal, passando pela limpeza, varrição, conservação, fiscalização e até cobranças. Assim, a capital paulista, com quase 11 milhões de habitantes, passou a dispor de menos de 140 mil funcionários ativos municipais, com cerca um empregado público local para cada 80 habitantes.
Em contraposição, na capital mexicana há um funcionário público municipal a cada 24 habitantes. Apesar de possuir menos habitantes que a capital paulista, a cidade do México detém 2,5 vezes mais servidores municipais, descontando-se ainda o fato de que os professores da rede pública que atuam na capital mexicana pertencerem à esfera federal.
Se analisada com cuidado a evolução do gasto com terceirizados no governo Lula percebe-se uma leve expansão no que diz respeito às chamadas outras despesas correntes. Nos dois primeiros anos do governo Lula, esse tipo de gasto foi 4% maior do que o verificado nos dois últimos anos do segundo governo FHC.
Nesse caso, justifica-se plenamente a ampliação dos concursos públicos para que seja possível interromper a verdadeira farra da privatização do Estado brasileiro imposta pelos anos de chumbo do neoliberalismo. A despeito disso, há sempre aqueles que procuram amenizar a dilapidação do Estado no Brasil desde 1990, utilizando-se do argumento de que houve, simultaneamente, o aumento da carga tributária e do gasto público.
Dessa forma, não haveria como identificar a presença do neoliberalismo no Brasil. Esquecem-se, todavia, que a natureza do neoliberalismo não está dada pela dimensão da arrecadação e do gasto público, conforme ocorria no século 19, diante do chamado Estado mínimo.
Nos dias de hoje, o neoliberalismo pressupõe a presença de um Estado com um forte papel de mobilização e concentração do excedente econômico. Ao contrário do Estado social-democrata, cuja função dos fundos públicos era de fortalecer o compromisso com o pleno emprego e favorecer a igualdade de acesso aos serviços universais de bem estar social, observa-se que, sob o neoliberalismo, o Estado utiliza-se cada vez mais do seu poder fiscal para arrancar recursos de camadas pobres da sociedade para poder assumir a condição de mero repassador de recursos a determinados segmentos privilegiados do setor privado.
No Brasil, o aumento da arrecadação tributária se deu justamente em cima da população mais pobre, em função da estrutura regressiva de absorção fiscal, enquanto o aumento do gasto público ocorreu progressivamente maior para os mais ricos. Nesse sentido, os dois primeiros anos do governo Lula não diferiram muito dos dois últimos anos do governo FHC, uma vez que os pagamentos com serviços decorrentes do endividamento público permaneceram em torno de 8,3% do Produto Interno Bruto (PIB) como média anual.
Por concentrar 4/5 do total da dívida pública em apenas 20 mil clãs de famílias muito ricas, o Estado não deixa de contribuir fortemente para a maior desigualdade de renda. Mesmo com os avanços dos recentes programas de garantia de renda, que atualmente chegam a transferir 0,4% do PIB a quase 8 milhões de famílias muito pobre, o país está muito longe do gasto público adequado e eticamente decente. |
- Postado por: Santista às 06h37 PM
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Deu ao mesmo tempo a lógica e zebra. O alemão era o sucessor natural, mas ninguém esperava que a igreja dividida fosse escolher, e com aquela rapidez, um representante tão ostensivo de um dos lados. O cardeal Ratzinger fez o seu discurso de posse antes de ser eleito. Na última missa antes da votação, leu um sermão que era uma declaração de princípios e agora vale como um programa de governo. Defendeu justamente o que mais divide a igreja, a resistência da ortodoxia aos novos tempos. Vai continuar o conservadorismo do João Paulo II sem a sua simpatia. Vai manter a posição intransigente do Vaticano com relação à prevenção da aids – que já custou sabe-se lá quantas vidas humanas – e a pesquisas biogenéticas e contra qualquer flexibilização dos seus dogmas e costumes. Depois do seu sermão eleitoral, nenhum cardeal tinha dúvidas sobre o que estaria escolhendo, escolhendo o Ratzinger. Votaram, desafiadoramente, pelo fortalecimento da “fé clara”, “com freqüência rotulada como fundamentalismo”, nas palavras dele. Algum representante do lado derrotado – que era pequeno, já que a maioria do Colégio de Cardeais foi feita por João Paulo II à sua semelhança – poderia dizer que votaram pelo suicídio.
Esperava-se um conclave mais longo, sinal da ponderação que não houve. Dia a dia, a fumaça da chaminé poderia ir nos informando sobre o que acontecia lá dentro. Fumaça cor-de-rosa, sinal de “tudo bem”. Fumaça vermelha: “Esquentou, estão se atracando.” Fumaça amarela: “Vai demorar, mandaram buscar pizza.” Etc. Mas não. A fumaça branca veio logo, nos informando que não havia muitas dúvidas entre os cardeais sobre quem deveria ser papa. Mas leio que há algumas mensagens reconfortadoras no seu pseudônimo. Ratzinger escolheu o nome Bento XVI.
O Bento XV assumiu no começo do século XX, depois de um dos períodos mais conturbados da Igreja, e foi um pacificador. Ratzinger talvez esteja querendo nos dizer que sua linha não vai ser tão dura assim. E o papado do Bento anterior foi um dos mais curtos de todos. Com 78 anos, Ratzinger talvez esteja se definindo como uma breve transição para outra coisa. De qualquer maneira, ainda não sabemos o que habemus.
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- Postado por: Santista às 10h14 AM
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